Sobre Ciência_A estupidez Portuguesa, a inteligência Alemã, o bom senso Francês e o princípio da confiança

Se no estrangeiro é possível fazer candidaturas de projectos com um mínimo de burocracia, bastando para o efeito a submissão de um ficheiro word e um ficheiro excel, porque é que em Portugal é necessário infernizar a vida dos investigadores em candidaturas com contornos kafkianos?”  

A pergunta supra foi feita no post de 24 de Abril com o título “Os truques e subterfúgios da FCT que infernizam a vida aos investigadores“, que se iniciou com declarações de um investigador da universidade de Lisboa, que criticou a burocracia da FCT que complicam a submissão de projectos. 

Neste contexto faz todo o sentido divulgar uma recente noticia ontem publicada na Science Business, sobre a Agência Alemã para a Inovação Disruptiva, onde se pode ler que, as candidaturas dos projetos se resumem a um ficheiro pdf de 8 páginas. Mas muito mais importante do que isso, e como relata o seu presidente, a redução da burocracia vai ao extremo de dispensarem provas de utilização dos fundos:  Successful teams are also not asked to offer any proof of how they spend their money. “The bureaucracy needs to be as minimal as possible,” said Costard. https://sciencebusiness.net/news/horizon-europe/inside-germanys-sprind-innovation-agency-anti-horizon-europe

Curiosamente, numa recente entrevista de um investigador Francês, recente vencedor do Nobel que visitou a universidade do Minho, ele falou sobre a utilização de verbas que sobram dos projectos de investigação. Algo que releva do mais elementar bom senso, pois se um investigador não esgotou a verba de um projecto deveria poder utilizá-la, noutras experiências científicas ou no pagamento de viagens a conferências ou em qualquer outra despesa cientifica. Essa possibilidade está porém absolutamente proibida em Portugal e essa é uma das razões do atraso científico Português, vide post de Março de 2024 sobre o facto do nosso país não conseguir sequer ultrapassar a Grécia ou o post de 15 de Agosto de 2022, sob o título Processo de Irrelevância Científica Em Curso – PICEC“. 

Por uma estranha coincidência, no dia 1 de Fevereiro do corrente ano, enviei aos aos membros da minha unidade de investigação, um email do qual abaixo reproduzo apenas a parte final:  “Termino, dizendo o seguinte, se já é difícil esperar que os investigadores Portugueses consigam competir com investigadores de universidades estrangeiras, que possuem vencimentos e condições laboratoriais muito superiores, não se percebe (e muito menos se aceita) que ainda por cima obriguem os investigadores a esse calvário. A situação devia ser precisamente a inversa, não querendo ou não podendo pagar mais, este Governo (ou qualquer outro) deveriam reduzir a burocracia na investigação a zero, deixando que os responsáveis dos projectos tivessem total liberdade de gestão, para gastarem o que quisessem quando quisessem, com base no principio da confiança“.

PS – Já há muitos anos que me queixo da burocracia infernal que existe na investigação, vide por exemplo um post de 2019, onde então manifestei a minha incredulidade, pelo facto dos investigadores terem menos liberdade de gestão do que as autarquias, onde se gastam fortunas em almoços de trabalho, isto quando não andam a comprar Porsches ou gastam milhões de euros, do dinheiro dos contribuintes, em artistas desconhecidos https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/07/o-artista-quem-camara-de-oeiras-ja.html

Licenciatura inovadora ensina como “sacar” milhões aos contribuintes sem violar a lei

O Público noticiou ontem que vários laboratórios, inclusive o laboratório que pertence a um ex-Bastonário da Ordem dos Médicos (!!!), agiram em cartel durante a pandemia do Covid-19, combinando os preços para que os contribuintes fossem obrigados a pagar aquilo que não teriam que pagar se os referidos laboratórios tivessem de concorrer entre si. Nele se pode ler que “Um exemplo claro da concertação de preços é referido no comunicado …em Junho de 2021 o país tinha o preço por teste “mais alto da Europa”. Em resultado da referida actividade criminosa foi-lhes aplicada uma multa de 49 milhões de euros.

É porém absolutamente garantido, que dessa multa milionária irão as referidas empresas pagar zero euros, pela simples razão que irão fazer exactamente o que fizeram outras empresas que a Autoridade da Concorrência também apanhou a cartelizar preços. Leia-se, pagar o que for necessário, dezenas ou mesmo centenas de milhares de euros a advogados para litigarem até ao limite do possível, já que essa opção fica sempre mais barata do que pagarem a multa. Vide post anterior onde se ficou a saber que por via dessa litigância absoluta a Autoridade da Concorrência só consegue receber 10% das multas que aplica ás empresas infractoras. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/01/os-advogados-que-garantem-impunidade-da.html

Tudo seria diferente se a legislação Portuguesa copiasse a legislação Norte-Americana que inclui penas até 10 anos de cadeia aos CEOs das empresas envolvidas em práticas de cartelização. Infelizmente, a legislação Portuguesa é na maior parte das vezes o péssimo resultado mal parido por um poder politico cobarde, (capturado “por um grupo profissional poderoso” Vital Moreira dixit referindo-se aos advogados) que sempre prefere deixar que os contribuintes sejam roubados, a ter a coragem de punir como realmente merecem os responsáveis das empresas que se dedicam a essa roubalheira.  com impunidade quase absoluta.

PS – Resta por isso saber, quando é que alguma instituição do ensino superior deste país, consegue perceber o filão formativo implícito nas práticas de cartelização e começa a ministrar uma licenciatura onde se aprende sobre a forma mais eficaz de cartelizar preços, sem se ser caçado pela Autoridade da Concorrência. O referido curso também ensinará como é que se consegue “atrair” o Estado para julgamentos arbitrais, onde a prática é que o mesmo Estado perca quase sempre e seja condenado a pagar centenas de milhões de euros, vide post recordista que já teve mais de 30.000 visualizações  https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/10/o-escandalo-milionario-na-justica.html

What are the chances that professors who have ascended to the top of the academic ladder through corrupt practices will uphold high standards of ethics and integrity?

In a recent editorial in the scientific journal Genes, Genomes, Genetics, the editor-in-chief, a professor at the University of Florida with a Scopus h-index of 45, highlights a critical but often overlooked point: citations are the primary way we recognize members of the global scientific community. As a result, individuals without citations, including full professors with none or an embarrassingly low number, are effectively excluded from this community.

This situation raises a crucial question: can we reasonably expect those who have reached the highest academic ranks through nepotism or corruption to uphold the principles of ethics, merit, and intellectual integrity? More pressing still: shouldn’t the scientific community assume responsibility for identifying and confronting such individuals—through measures such as professional boycotts or by excluding them from editorial boards, funding panels, and other positions of academic influence?

In my country, I’ve noticed that some academics achieve full professorships through nepotism or political connections, while top young scholars are forced to emigrate to other countries to secure such positions. This issue is not unique to my country; a few years ago, a study revealed rampant nepotism in Italian academia. These problems exist in many countries, not just in Southern Europe.

This prompted me to advocate, several years ago, that Portuguese professors without a minimum number of citations (a Scopus h-index lower than 10) should be dismissed for failing to produce relevant academic work. In 2021 and again in 2022, I compiled lists of full professors who had not produced a single paper with at least 150 citations on Scopus. Unsurprisingly, those named were not pleased.

PS – Not all citations hold the same value. Some citations are highly valuable, others have zero value (self-citations), and some (Google Scholar based) even have a negative impact

Catedrática afirma que há catedráticos que não fazem parte da comunidade científica

Num recente editorial da revista científica Genes, Genomes, Gentics, a editora-Chefe da mesma, catedrática da universidade da Florida (Scopus h-index=45) lembra aquilo que é, ou devia ser, mais ou menos óbvio, que as citações são a forma como reconhecemos aqueles que fazem parte da comunidade científica mundial. Resulta daqui que aqueles que não tem citações não fazem parte dessa comunidade, inclusive até mesmo muitos catedráticos  https://academic.oup.com/g3journal/article/14/7/jkae102/7709035

PS – No contexto supra vale a pena recordar (ou revistar) o conteúdo do post do passado mês de Maio: “Nem todas as citações valem o mesmo: Há as que tem muito valor, as que tem valor nulo (auto-citações) e as de valor negativo”

The Economist – IA revoluciona a previsão de crises financeiras e outros eventos críticos em sistemas complexos

Investigadores chineses demonstraram que a inteligência artificial (IA) consegue prever com elevado rigor pontos de inflexão críticos (tipping point) em sistemas complexos, como os mercados financeiros (crise de 2007-09), as alterações abruptas nos ecossistemas, em inundações, ou em quebras de fornecimento de energia elétrica e muitos outros.  Vide estudo recente que foi publicado na Physical Review X, e que foi divulgado no último número da revista The Economist.

Os referidos investigadores utilizaram mais de duas décadas de dados de satélite sobre cobertura arbórea e de precipitação naÁfrica Central, para tentar prever mudanças de florestas tropicais para savanas. O algoritmo de IA constatou que uma pequena diminuição na precipitação anual podia causar uma queda abrupta na cobertura arbórea, um ponto de inflexão crítico, o que representa um claro avanço que supera as limitações de estudos anteriores e destaca o potencial da IA para prever eventos críticos em diversas áreas:

“The team then asked the algorithm to identify the conditions that drove the shift to savannah—or, in other words, to predict an oncoming phase transition. The answer was, as expected, down to annual rainfall. But the ai was able to go further. When annual rainfall dropped from 1,800mm to 1,630mm, the results showed that average tree cover dropped by only about 5%. But if the annual precipitation decreased from 1,630mm to about 1,620mm, the algorithm identified that average tree cover suddenly fell by more than 30% further. This would be a textbook critical transition. And by predicting it from the raw data, the researchers say they have broken new ground in this field. Previous work, whether with or without the assistance of ai, could not connect the dots so well. https://www.economist.com/science-and-technology/2024/07/17/ai-can-predict-tipping-points-before-they-happen

PS – Na mesma revista há um outro artigo interessante de título “China is the West´s corporate R&D lab. Can it remain so ?”, que deve ser lido tendo em conta aquilo que foi publicado na mesma revista, na segunda semana de Junho (sobre a ascenção da ciência chinesa) e que eu na altura comentei no post “Os políticos Portugueses são distraídos ou padecem de tacanhez mental profunda?” e também no post “Da Profunda Ignorância e Incompetência Portuguesa à Excelência Científica Chinesa

O país em que professores universitários tem de pagar para que os tribunais ensinem a lei a quem a deveria saber

No inicio do presente mês de Julho divulguei uma sentença de um tribunal, que em boa hora absolveu um professor universitário da prática de um alegado crime. Essa sentença merece hoje um artigo na revista Sábado, com o esclarecedor título “Tribunal decide que professor da FDUL tem direito à liberdade de expressão“.

O alegado crime, foi o facto do referido (e corajoso) professor ter dado uma entrevista à revista Sábado em 2020 e antes disso em 2019 ter enviado emails contendo “reparos sobre como eram nomeados professores assistentes na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa-sobretudo os filhos dos docentes da casa”.

No artigo de hoje da referida revista pode ler-se que “A decisão pode ser importante como precedente no meio académico português, onde a abertura para criticas a problemas institucionais é tipicamente“. Não subscrevo porém esta conclusão que reputo de simplista, porque o meio académico Português não é homogéneo.

Há de facto certas universidades com a tal “pouca abertura“, como a supracitada e outras onde até se fala da palavra medo, como aquela apontada por este catedrático, mas há outras universidades onde esse medo inexiste e outras ainda onde há catedráticos que até chegam ao ponto de defender a necessidade de caos. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/academia-portuguesa-necessita-de.html

Em boa verdade as elevadas percentagens de descendentes de catedráticos contratados na mesma Faculdade que os seus progenitores, é um fenómeno muito localizado nalgumas poucas áreas, pois na minha área científica e noutras não se verifica de todo.

PS – Infelizmente não são só os professores universitários que tem de suportar as custas com acções judiciais, também há investigadores que o fazem.

Vencedor de prémio Nobel aconselha arrogância aos jovens investigadores

No post anterior divulguei os conselhos de um catedrático ilustre a jovens investigadores ambiciosos e nessa sequência entendo agora também importante divulgar o recente conselho de um investigador Francês vencedor do Prémio Nobel da Física, que quando esteve na Universidade do Minho revelou durante uma longa entrevista (muito longa) que deu a um jornalista do jornal Público que, “Em investigação de ponta é preciso ser-se arrogante o suficiente...” https://www.publico.pt/2024/07/14/ciencia/entrevista/inquietacao-arrogancia-claro-nobel-preso-quantica-alain-aspect-2094271

Ou talvez a palavra arrogância não seja a mais indicada para descrever o que ele pretendia dizer, talvez se estivesse a referir à arrogância da rebeldia, uma qualidade que consegue ser melhor descrita pelas palavras audácia indomável, e que já tinha sido igualmente aconselhada por um conhecido físico Italiano, em 2019, também durante uma entrevista ao mesmo jornal Público.  https://www.publico.pt/2019/11/23/ciencia/entrevista/carlo-rovelli-compreender-curvatura-espaco-tempo-quase-trip-psicadelica-1894617

Pessoalmente, prefiro de longe, antes o aguerrido conselho de um corajoso matemático Francês, que na hora da despedida do cargo de Presidente do European Research Council, que exerceu ao longo de seis anos, disse que quando aquilo que estiver em jogo forem cortes do financiamento científico, os investigadores não devem ter medo de entrar em guerra com o poder político. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/12/there-are-times-when-scientists-must.html

PS – Se os cientistas estão destinados a ocupar o topo da “pirâmide alimentar” na civilização do Tipo 1 que estás prestes a emergir, será que poderíamos culpá-los por exibirem um indisfarçável sentimento de orgulho mesmo que possa pecar por quase roçar a arrogância ? 

Nobel Prize Winner Advises Young Scientists to Adopt Confident Arrogance

In my previous post, I shared the advice of an esteemed professor to ambitious young researchers. Continuing this theme, I believe it is also important to share the insights of a French Nobel Laureate in Physics. During a lengthy interview with a journalist from the Público newspaper at the University of Minho, he revealed, In cutting-edge research, you have to be arrogant enough…’. https://www.publico.pt/2024/07/14/ciencia/entrevista/inquietacao-arrogancia-claro-nobel-preso-quantica-alain-aspect-2094271

Perhaps ‘arrogance’ isn’t the most fitting term for what he intended to convey. He might have been referring to the ‘arrogance of rebellion‘ mentioned by a renowned Italian physicist in a 2019 interview with the same newspaper, Público https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/10/study-on-academic-inbreeding-involving.html

Personally, I am far more inspired by the resolute advice of a fearless French mathematician. At the end of his six-year tenure as President of the European Research Council, he emphatically declared that when scientific funding cuts are at stake, researchers must not hesitate to confront political power head-on. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/12/there-are-times-when-scientists-must.html

PS – If scientists are destined to occupy the highest echelon of the societal hierarchy in the forthcoming Type One civilization, how could anyone fault them for exhibiting a sense of pride, even if it borders on arrogance? 

Três perguntas muito pertinentes sobre o desperdício do dinheiro dos contribuintes em salários de 5000 euros

Sobre o artigo acessível no link supra, que hoje integra o jornal Público e que dá conta que uma instituição de ensino superior, decidiu abrir concursos, para posições com renumeração mensal de 5000 euros, a que só podem concorrer Vice-Presidentes dessa instituição, faz todo o sentido questionar:

1 – Faz algum sentido abrir concursos aos quais só pode concorrer um único candidato ?

2 – Faz algum sentido que os contribuintes de um país, que vive de esmolas dos países do Norte da Europa, tenham de sustentar salários mensais de 5000 euros, a professores que em muitos casos possuem currículos científicos inferiores ao de recém doutorados ?

3 – O que é que Portugal está à espera para implementar no ensino superior, um regime de qualificação científica mínima similar ao que há muito existe na Itália? 

Declaração de interesses – Declaro que no contexto supra é muito pertinente revisitar o post de título “Quando estar desempregado é afinal uma inequívoca medalha de honra” https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/03/quando-estar-desempregado-e-uma-medalha.html

PS – No contexto supra também vale a pena revisitar o post anterior, sobre a comissão de avaliação do ensino superior presidida pelo Ex-Presidente da A3ES.

Will the Million-Euro Science Funded by the ERC Be Able to Escape the EU Paradox?

Building on a previous post regarding a study that demonstrated European startups applying the scientific method are more profitable, with top performers gaining nearly half a million euros in additional revenue, it is pertinent to examine a recent paper published in the journal Research Policy titled “ERC Science and Invention: Does ERC Break Free from the EU Paradox?“.

The study shows that ERC-funded research has a higher impact on inventions and is more likely to originate from universities compared to other European research. However, US startups benefit more from this research due to a more dynamic startup ecosystem, while the EU continues to face challenges in commercializing its scientific advancements, known as the European Paradox. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0048733324000878#sec5

There is another way to increase European wealth where science could play a crucial role beyond the creation of startups. This involves leveraging scientific methods to hunt down large tax evaders. As I wrote in 2019 in an email that irritated German MEP Hans-Olaf Henkel, the fact is: “…He forgets that if Europe was able to cut tax evasion by half that would mean an annual revenue of around 500 billion which is more than the annual total net income of 15 Google champions…”

PS – In light of the aforementioned context, it is also worth exploring the post titled “The Economist “The World Ahead 2024″__What constitutes the most efficient method for financing scientific endeavors?