https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/08/o-ranking-shanghai-de-2026-mostra-o.html
No post anterior, sobre os resultados do Ranking de Shanghai de 2026, mostrei que a deterioração recente das universidades portuguesas está fortemente associada à perda de investigadores altamente citados. Vide post acessível no link supra. Mas a conclusão mais dura é outra, Portugal deixou de ter qualquer universidade entre as 300 melhores do mundo, porque as universidades de Lisboa e Porto falharam precisamente na função para a qual dispõem de mais escala e recursos, do que qualquer outra universidade portuguesa.
Em 2025, ambas estavam no intervalo 201–300; em 2026, ambas caíram deixando Portugal, sem nenhuma universidade nesse escalão estando o nosso país agora abaixo da desgraçada Argentina, um país que recorde-se possui quase 20 milhões de pobres. Não estamos perante uma pequena oscilação estatística, estamos perante o desaparecimento da primeira linha universitária portuguesa de um patamar internacional de alguma excelência que o país dizia querer ultrapassar, não abandonar.
O mais inquietante é que esta queda parece menos um acidente do que o resultado previsível de um modelo que, há demasiado tempo, se recusa a competir seriamente pelos melhores investigadores. Nos sistemas científicos mais fortes, as universidades disputam talento, procuram ativamente investigadores excecionais e sabem que a sua reputação futura depende da capacidade de os atrair. Em Portugal, pelo contrário, e como escrevi recentemente, o sistema funciona segundo uma lógica inversa, a contratação e progressão académicas estão condicionadas por culturas de obediência e vassalagem, pela preservação das hierarquias instaladas e pela proteção de privilégios corporativos, feudos académicos e conveniências mesquinhas e paroquiais.
Note-se que foi precisamente a propósito da Universidade de Lisboa que um talentoso investigador português, vencedor do Prémio Pessoa e membro do júri do prestigiado Prémio Gulbenkian para a Humanidade, resumiu de forma particularmente devastadora aquilo que este modelo pode produzir, uma “burocracia cuidadosamente arquitetada para defender os interesses da mediocridade instalada”. E sobre a universidade do Porto é importante recordar que se trata de uma universidade onde há concursos para lugares de Associado, ganhos por candidatos com duas publicações indexadas e duas citações, onde há catedráticos com métricas absolutamente irrelevantes, e onde os próprios responsáveis máximos praticam actos que causam vergonha https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/05/a-extraordinaria-falta-de-vergonha-de.html
PS – Esta é, aliás, a altura ideal para revisitar a última e malfadada “avaliação” das unidades de investigação, onde pasme-se cerca de 75% das unidades de I&D foram classificadas como Muito Bom ou Excelente. Há qualquer coisa de grotesco num sistema que assim distribui excelentes e muito bons pelas suas unidades de investigação, enquanto as universidades portuguesas que reflectem o seu desempenho científico, desaparecem do Top 300 de Shanghai e o país fica atrás da Argentina. Quando quase todos são “Muito Bons” ou “Excelentes” e os resultados internacionais são estes, talvez o problema não esteja apenas na ciência portuguesa, mas também numa pseudoavaliação transformada numa máquina de legitimação da mediocridade. Seria por isso saudável que os responsáveis por um processo onde as métricas foram proibidas e as classificações máximas abundaram fossem obrigados a ler e, se necessário, a reler até conseguirem perceber, se é que tem a capacidade para isso, o recente artigo de três professores catedráticos, incluindo um ex-reitor, em defesa do uso sério de métricas, que divulguei a 10 de agosto. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/08/bibliometrics-makes-mediocrity-harder.html
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