Quem acompanhou a forma displicente como o Governo de António Costa respondeu tardiamente à criminosa invasão russa da Ucrânia, necessitando de nada menos de 90 dias para publicar no Diário da República a Resolução do Conselho de Ministros n.º 82/2022 (vide post acessível no link acima), não pode deixar de olhar para o que se passa actualmente com uma mistura de incredulidade e indignação. Fica-se com a sensação de que, neste país, mudam os governos, mas a inércia permanece intacta.
Desgraçadamente, a situação atual é muito mais grave do que a de 2022, como se depreende aliás do grave e inequívoco aviso bem explícito nas palavras do Diretor da Agência Internacional de Energia-IEA. Tenha-se presente que em 2022, a ameaça era o gás russo, do qual Portugal era quase inteiramente independente, o que tornava a Resolução do Conselho de Ministros n.º 82/2022 num exercício de solidariedade europeia com alguns laivos de dramatização política para consumo interno. Em 2026, porém, a ameaça é o petróleo de que a economia Portuguesa é altamente dependente, dependência essa que é transversal a todos os sectores económicos.
Perante este cenário, o Governo atual não conseguiu até ao momento produzir um documento integrador, que estabeleça prioridades de segurança energética e de redução de vulnerabilidades, limitando-se a algumas medidas avulsas centradas quase exclusivamente em mecanismos de alívio fiscal e descontos artificiais no preço dos combustíveis. Medidas essas que não passam de expedientes de curto prazo, que mascaram o problema sem o resolver, distorcem preços, deliberadamente adiam ajustamentos comportamentais necessários, tanto inevitáveis quanto urgentes e que inevitavelmente transferem para o Orçamento do Estado, ou seja, para todos os contribuintes, o custo de uma imitação de “política energética” sem qualquer visão estratégica.
Esta abordagem não é apenas insuficiente, é também enganosa. Cria a ilusão de ação governativa onde existe apenas gestão de imagem. Substitui a estratégia pelo improviso, o planeamento pela reação circunstancial e a visão de médio prazo pela gestão manhosa do ciclo mediático. E consegue ainda o milagre de ficar aquém do que fez o Governo de António Costa que, mesmo tardiamente, aprovou, ao abrigo da supracitada Resolução do Conselho de Ministros n.º 82/2022, um plano de poupança de energia que, entre inúmeras medidas, mencionava o teletrabalho mais de uma dezena de vezes.
PS – Se reduzir a velocidade máxima de circulação nas estradas é uma das medidas de poupança energética mais imediatas, eficazes e de custo nulo para o Estado, nunca houve momento mais propício para a implementar em Portugal, um país que tem um problema estrutural e persistente com o excesso de velocidade que, ao invés de diminuir, cresceu de forma alarmante no último ano e onde as infrações por velocidade já representam cerca de 70% de todas as contraordenações rodoviárias, levadas a cabo por condutores psicopatas cujo desrespeito sistemático pelas regras impõe ao nosso país um prejuízo anual de quase 10 mil milhões de euros https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/12/quer-ser-sepultado-inteiro-ou-em-varios.html
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