Ranking Shanghai de 2026: Lista das 42 áreas com maior prestigio científico em Portugal

Na sequência do post anterior, no qual o prestigiado ranking de Shanghai por áreas científicas expôs, com a frieza irrefutável dos números, uma realidade confrangedora, que três das seis universidades portuguesas mais bem classificadas não possuem uma única área entre as 100 melhores do mundo, importa agora tornar pública uma informação que, num sistema de ensino superior minimamente transparente, deveria estar ao alcance de todos os candidatos ao ensino superior, quais são, em cada área científica, as instituições portuguesas mais bem posicionadas no top 500 mundial.

Ao escolherem um curso os estudantes têm o direito de conhecer a respetiva competitividade científica internacional, e não apenas as narrativas promocionais meticulosamente construídas pelas universidades. Porém, demasiadas instituições portuguesas praticam uma transparência de geometria variável, já que amplificam até à exaustão os indicadores que as favorecem e condenam a um conveniente silêncio tudo quanto revele mediocridade, irrelevância ou ausência de competitividade científica à escala internacional.

Tal reprovável propaganda (leia-se sonegação informativa) distorce a perceção pública, condiciona decisões capazes de marcar uma vida e permite que reputações herdadas sobrevivam a resultados que há muito deixaram de as justificar. Para rasgar este véu de opacidade institucional, apresentam-se abaixo, as três instituições portuguesas mais bem classificadas na edição de 2026 do ranking de Shanghai.

PS – Irónica e hipocritamente, a mesma imprensa que todos os anos disseca até à exaustão os rankings das escolas, transformando classificações metodologicamente discutíveis em publicidade gratuita para os colégios privados, como critiquei no final do mês de Agosto neste post aqui, torna-se subitamente desatenta quando chega o momento de escrutinar, área por área, a competitividade científica das universidades.

Ciências Biológicas………………………………….U.Lisboa, U.Porto e U.Coimbra

Ciências Biológicas Humanas…………………….U.Lisboa, U.Porto e U.Coimbra

Ciências Agrárias………………………………………U.Lisboa, U.Porto e UTAD

Ciências Veterinárias………………………………..U.Lisboa, U.Porto e UTAD

Matemática………………………………………………U.Porto e U.Lisboa

Física……………………………………………………….U.Lisboa, U.Aveiro e U.Coimbra

Química……………………………………………………U.Aveiro, U.Lisboa e U.Coimbra

Ciências da Terra………………………………………U.Lisboa e U.Porto

Geografia………………………………………………….Nenhuma instituição

Ecologia………………………………………………….U.Lisboa, U.Porto e U.Coimbra

Oceanografia…………………………………………..U.Lisboa, U.Porto e U.Aveiro

Ciências Atmosféricas………………………………U.Lisboa, U.Porto e U.Aveiro

Medicina Clínica……………………………………..U.Lisboa, U.Porto, U.Coimbra e UNova

Saúde Pública…………………………………………..UNova, U.Lisboa e U.Porto

Medicina Dentária e Ciências Orais……………U.Lisboa, U.Coimbra, U.Católica

Enfermagem……………………………………………..Nenhuma instituição

Tecnologia Médica……………………………………U.Lisboa

Farmácia e Ciências Farmacêuticas……………..U.Porto, U.Lisboa e U.Coimbra

Economia………………………………………………..U.Lisboa, UNova e ISCTE

Estatística…………………………………………………U.Lisboa

Direito……………………………………………………….Nenhuma instituição

Ciências Políticas……………………………………..U.Lisboa

Sociologia………………………………………………..Nenhuma instituição

Educação………………………………………………….U.Porto e U.Lisboa

Comunicação……………………………………………Nenhuma instituição

Psicologia…………………………………………………U.Lisboa, U.Minho e ISCTE

Administração de Empresas………………………UNova, U.Católica e ISCTE

Finanças……………………………………………………UNova

Gestão……………………………………………………….U.Lisboa, UNova e U.Porto

Administração Pública……………………………..Nenhuma instituição

Gestão do Turismo……………………………………U.Algarve

Biblioteconomia e Ciência da Informação…….Nenhuma instituição

Engenharia Mecânica……………………………….U.Minho, U.Lisboa, U.Porto e U.Aveiro

Engenharia Eletrotécnica e Eletrónica……….U.Lisboa, U.Coimbra e U.Porto

Automação e Controlo………………………………U.Lisboa

Engenharia de Telecomunicações………………U.Aveiro

Ciência e Tecnologia da Instrumentação……U.Lisboa, U.Aveiro, U.Porto e U.Coimbra

Engenharia Biomédica………………………………U.Minho e U.Porto

Ciência e Engenharia de Computadores……..U.Lisboa e U.Porto

Engenharia Civil……………………………………….U.Lisboa, U.Minho e U.Porto

Engenharia Química………………………………….U.Porto, U.Minho e U.Aveiro

Inteligência Artificial………………………………….U.Lisboa

Engenharia e Ciência Têxtil………………………..Nenhuma instituição

Ciência e Engenharia de Materiais……………..U.Aveiro, U.Porto e U.Minho

Nanociência e Nanotecnologia…………………….Nenhuma instituição

Ciência e Engenharia da Energia………………..Nenhuma instituição

Ciência e Engenharia do Ambiente…………….U.Aveiro, U.Porto e U.Coimbra

Recursos Hídricos……………………………………..U.Lisboa

Ciência e Tecnologia Alimentar…………………..U.Porto, IPBragança, U.Minho e U.Aveiro

Biotecnologia…………………………………………….U.Porto, U.Lisboa e U.Minho

Engenharia Aeroespacial…………………………..Nenhuma instituição

Engenharia Naval e Oceânica……………………U.Lisboa e U.Porto

Ciência e Tecnologia dos Transportes………..Nenhuma instituição

Engenharia Metalúrgica…………………………….UNova e U.Aveiro

Engenharia de Minas………………………………….Nenhuma instituição

Engenharia Civil da Univ. do Porto: 10 anos de comprovada incapacidade competitiva

À lista de alguns dos vários inconseguimentos da área científica de Engenharia Civil da Universidade do Porto, anteriormente assinalados em Maio de 2020, em 1 de Maio de 2025, ou mais recentemente em 1 de Agosto de 2025, acrescento agora mais um, particularmente elucidativo, que se obtém da análise do prestigiado ranking Shanghai por áreas científicas.

Nas dez edições que já leva aquele ranking, publicadas entre 2017 e 2026, a Engenharia Civil da Universidade do Porto não conseguiu, uma única vez, obter uma classificação superior à da Universidade do Minho. Nesse ranking a Universidade do Porto entrou no top 100 mundial apenas três vezes; a Universidade do Minho conseguiu-o repetidamente em nove edições. Não estamos, portanto, perante uma oscilação ocasional ou um ano menos feliz, mas perante um padrão de incapacidade competitiva reiteradamente confirmado ao longo de uma década. Vide tabela infra.

Mas o contraste referido adquire contornos quase embaraçosos quando observado numa perspetiva histórica. O curso de Engenharia Civil da Universidade do Porto remonta a 1915, enquanto a licenciatura em Engenharia Civil da Universidade do Minho surgiu apenas quase 70 anos mais tarde. Em poucas décadas, a instituição mais jovem não se limitou a recuperar o enorme atraso com que partiu, anulou por completo a vantagem histórica da sua congénere centenária e passou a superá-la de forma sistemática, ano após ano.

PS – A referida incapacidade não se limita ao ranking Shanghai. Os investigadores da área de Engenharia Civil da Universidade do Porto nunca conquistaram uma bolsa do European Research Council (ERC), enquanto os da Universidade do Minho já conquistaram duas. E entre os investigadores portugueses da área da engenharia civil que integram o restrito grupo do top 0,5% mais citados do mundo, do ranking Elsevier-Stanford, dois pertencem à Universidade do Minho e nenhum à Universidade do Porto.

Ranking Shanghai por áreas 2026. Mais um prego no caixão da alegada excelência da ciência portuguesa

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/09/novas-evidencias-desmascaram.html

Depois dos vários factos muito pouco lustrosos que reuni no post anterior (vide link supra) sobre a fraca competitividade internacional da ciência portuguesa, o prestigiado Shanghai Ranking por áreas científicas, divulgado hoje, acrescenta um resultado difícil de disfarçar, a Univ. de Coimbra, a Univ. Nova e a Univ. de Aveiro não conseguiram colocar uma única área científica entre as 50 melhores do mundo, nem sequer nenhuma área entre as 100 melhores do mundo. Vide lista infra.

Tão pouco se pode alegar que 2026 se trata de um mau ano isolado. Nas seis universidades portuguesas melhor classificadas (ULisboa, UPorto, UCoimbra, UMinho, UNova e UAveiro), o total de áreas no top 500 do ranking Shangai caiu de 182 em 2019 para 146 em 2022 e agora em 2026 para apenas 118, o que representa uma redução de cerca de 35%. Perante estes resultados internacionais e os anteriores, como se pode, de boa-fé, levar a sério uma avaliação que classificou cerca de 75% das unidades de investigação como Muito Bom ou Excelente, como questionei no post anterior ?

Há alguns anos atrás, comentei no meu primeiro blogue, o facto do vice-reitor responsável pela investigação da Universidade de Helsínquia ter dito à imprensa finlandesa que considerava preocupante a descida da sua universidade do 57.º para o 63.º lugar no ranking Shanghai. Ou seja naquele país uma ligeira descida já merecia uma explicação pública. Agora, no ranking Shanghai por áreas científicas, a U.Coimbra, a UNova e U.Aveiro não colocam uma única área no Top 100 mundial. Alguém acredita que algum dos seus responsáveis venha explicar à imprensa este fraco resultado?

UniversidadeÁrea CientíficaPosição no Ranking Shanghai 2026
U.LisboaMarine/Ocean Engineering7.º
U.LisboaCivil Engineering31.º
U.LisboaVeterinary Sciences37.º
U.PortoMarine/Ocean Engineering47.º
U.LisboaOceanography51–75
U.PortoFood Science & Technology51–75
U.PortoBiotechnology51–75
U.MinhoCivil Engineering51–75
U.LisboaEcology76–100
U.LisboaWater Resources76–100
U.LisboaStatistics76–100
U.PortoCivil Engineering76–100
U.PortoVeterinary Sciences76–100
U.AlgarveTourism Management76–100

O catedrático que revela a receita da morte, o catedrático que traz o diabo ao colo e uma forma repugnante de corrupção

Luís Aguiar-Conraria, um conhecido catedrático da Universidade do Minho que já citei dezenas de vezes, revela, no seu mais recente artigo publicado no primeiro caderno do semanário Expresso, um dado profundamente perturbador: um estudo que avaliou o impacto da privatização de 258 hospitais nos Estados Unidos concluiu que essa mudança provocou quase 920 mortes adicionais por ano

Ainda mais inquietantes são os resultados de outro estudo referido por Aguiar-Conraria, realizado em Estocolmo e publicado numa das mais prestigiadas revistas internacionais de Economia. Na capital sueca, o Estado paga a operadores privados para manterem ambulâncias disponíveis para responder também a emergências públicas. Essa coexistência permitiu comparar os resultados dos doentes assistidos por ambulâncias públicas e privadas. A conclusão é tão clara quanto alarmante, ser assistido por uma ambulância privada aumenta a probabilidade de morrer nos três anos seguintes. 

Segundo o estudo, os operadores privados conseguem reduzir os custos através da diminuição da qualidade das equipas das ambulâncias. Pior ainda, o mesmo estudo concluiu que o valor económico das mortes adicionais ultrapassa as poupanças proporcionadas pelo serviço privado. Há, contudo, uma questão que o artigo de Aguiar-Conraria não esclarece e que seria interessante conhecer, depois de estes resultados terem sido tornados públicos, estarão os habitantes de Estocolmo dispostos a ser assistidos por uma ambulância privada, sabendo que essa escolha poderá aumentar o risco de uma morte prematura?

Não menos inquietante é o artigo publicado no caderno de Economia do mesmo semanário pelo professor catedrático Ricardo Reis, com o sugestivo título “O acerto de contas chegou”, embora, perante a gravidade do cenário que nele se descreve, talvez fosse mais rigoroso e certamente mais honesto chamar-lhe O diabo já chegou. Ricardo Reis analisa a subida generalizada das taxas de juro em todo o mundo, lembrando que, em países como o Reino Unido e o Japão, estas atingiram recentemente valores que não se verificavam há mais de três décadas. O artigo termina com um aviso que deveria inquietar qualquer contribuinte: “Pagar os juros da dívida vai começar a pesar, e muito… Os governos vão ter de fazer escolhas difíceis sobre onde cortar.”

Pessoalmente, acho que qualquer Governo deveria começar por apresentar a factura a quem nunca a pagou, os multimilionários, especialistas em fugir aos impostos (Piketty dixit). E se continuarem a encontrar novas formas de não pagar, talvez não reste outra solução senão seguir a proposta de uma catedrática da Universidade de Utrecht, que defende a aplicação de uma taxa de 100% sobre toda a riqueza que ultrapasse 10 milhões de euros. Porque um Governo que prefere cortar hospitais, escolas, pensões e apoios sociais a limitar patrimónios cuja dimensão se tornou económica, social e moralmente obscena não está a submeter-se a uma fatalidade financeira, mas a praticar uma forma particularmente repugnante de corrupção moral, já que decide proteger deliberadamente os privilégios de uma minoria cínica, gananciosa e parasitária e obriga quem vive unicamente do seu trabalho a pagar integralmente essa factura.

Aquecimento global provoca explosão de notas de 19 e 20 valores nos colégios privados em Portugal

https://pachecotorgal.com/2022/07/09/expresso-denuncia-omissao-escandalosa-do-governo-que-favorece-os-colegios-que-inflacionam-notas/

Em Julho de 2022 denunciei que o Ministério da Educação tinha deixado de exigir informação essencial para identificar os colégios privados que inflacionavam as classificações dos seus alunos. Vide post acessível no link supra. O director-geral responsável pelas estatísticas da educação respondeu na altura com a cândida esperança de que os colégios “agissem de forma honesta”. Quatro anos depois, o resultado desta fiscalização de sacristia está à vista. Como o Governo se recusa a recolher os dados necessários para explicar o fenómeno, só nos resta concluir que o aquecimento global também chegou às pautas e está a provocar uma subida vertiginosa da temperatura das notas, curiosamente, com especial intensidade nos colégios privados.

Segundo noticia hoje o jornal Público, existem 38 colégios privados nos quais pelo menos 30% dos alunos obtiveram 19 ou 20 valores a todas as disciplinas. Não apenas numa disciplina, nem somente entre alguns alunos excepcionais, a todas as disciplinas. Nas escolas públicas não existe nada comparável. Portugal parece ter descoberto uma prodigiosa fábrica de génios que, por uma coincidência verdadeiramente espantosa, só funciona atrás de portões onde se pagam propinas.https://www.publico.pt/2026/08/27/sociedade/noticia/ha-alunos-notas-altas-38-colegios-menos-30-estudantes-19-20-2186298?ref=hp&cx=manchete_2_destaques_0

Infelizmente a DGEEC não publica, escola por escola, a diferença entre as classificações internas e as notas dos exames nacionais dos alunos que recebem 19 e 20. Também não conhece adequadamente o perfil socioeconómico dos alunos dos colégios, porque estes não fornecem essa informação e o Estado não tem a coragem de os obrigar a fazê-lo. Esta ignorância não é acidental nem inevitável, foi deliberadamente construída pelo poder político. O Governo conhece a suspeita, dispõe dos meios para a esclarecer e, apesar disso, escolhe manter na sombra os dados que permitiriam saber quem está efectivamente a ensinar melhor e quem pode estar simplesmente a inflacionar as notas.

Quando sucessivos governos conhecem uma anomalia desta gravidade e recusam-se a criar os instrumentos necessários para a investigar, já não basta falar de negligência, cobardia ou incompetência. Estamos perante uma cumplicidade institucional por omissão. A ausência de fiscalização não é neutra, favorece objectivamente os estabelecimentos que eventualmente inflacionam classificações e as famílias que podem pagar para aceder às vantagens daí resultantes. O Ministério da Educação, que deveria garantir a igualdade no acesso ao ensino superior, transformou-se no guardião da opacidade que pode estar a corromper essa igualdade.

Talvez o Governo acredite que estes 38 colégios foram atingidos simultaneamente por uma vaga súbita de genialidade multidisciplinar. O problema é que estas classificações não são medalhas decorativas, elas decidem quem entra e quem fica à porta do ensino superior. Em cursos como Medicina, algumas centésimas podem entregar uma vaga ao aluno protegido pela pauta mais generosa e retirá-la a um outro verdadeiramente mais bem preparado e mais merecedor. Quando o Estado permite que classificações atribuídas sem escrutínio suficiente decidam essas vagas, deixa de ser um espectador inocente, torna-se participante num sistema que está a premiar apenas o dinheiro em vez do mérito.

Em 2022, perguntei quantos jovens de famílias pobres seriam ultrapassados no acesso ao curso de Medicina por alunos beneficiados por notas inflacionadas. Em 2026, o Governo continua sem responder porque escolheu não recolher nem divulgar os dados que permitiriam fazê-lo. Esta recusa protege alguém e certamente não protege os filhos de famílias pobres que dependem exclusivamente do seu mérito. Em 2026, o Governo continua sem responder, porque escolheu não possuir os dados que permitiriam fazê-lo.

Trinta por cento dos alunos com 19 ou 20 valores a tudo em 38 colégios privados não é uma curiosidade estatística nem um efeito do aquecimento global, é a suspeita de uma fraude sistémica no coração do acesso ao ensino superior. Se houver alunos, e há certamente, a perder vagas porque outros receberam classificações artificialmente inflacionadas, não estaremos perante uma simples injustiça escolar, mas perante um roubo institucionalizado de oportunidades, praticado contra jovens cujo único “erro” foi não terem dinheiro para comprar o acesso ao colégio certo.

Ranking Shanghai de 2026 -As universidades de Lisboa e Porto são as responsáveis por Portugal estar agora abaixo da Argentina

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/08/o-ranking-shanghai-de-2026-mostra-o.html

No post anterior, sobre os resultados do Ranking de Shanghai de 2026, mostrei que a deterioração recente das universidades portuguesas está fortemente associada à perda de investigadores altamente citados. Vide post acessível no link supra. Mas a conclusão mais dura é outra, Portugal deixou de ter qualquer universidade entre as 300 melhores do mundo, porque as universidades de Lisboa e Porto falharam precisamente na função para a qual dispõem de mais escala e recursos, do que qualquer outra universidade portuguesa. 

Em 2025, ambas estavam no intervalo 201–300; em 2026, ambas caíram deixando Portugal, sem nenhuma universidade nesse escalão estando o nosso país agora abaixo da desgraçada Argentina, um país que recorde-se possui quase 20 milhões de pobres. Não estamos perante uma pequena oscilação estatística, estamos perante o desaparecimento da primeira linha universitária portuguesa de um patamar internacional de alguma excelência que o país dizia querer ultrapassar, não abandonar.

O mais inquietante é que esta queda parece menos um acidente do que o resultado previsível de um modelo que, há demasiado tempo, se recusa a competir seriamente pelos melhores investigadores. Nos sistemas científicos mais fortes, as universidades disputam talento, procuram ativamente investigadores excecionais e sabem que a sua reputação futura depende da capacidade de os atrair. Em Portugal, pelo contrário, e como escrevi recentemente, o sistema funciona segundo uma lógica inversa, a contratação e progressão académicas estão condicionadas por culturas de obediência e vassalagem, pela preservação das hierarquias instaladas e pela proteção de privilégios corporativos, feudos académicos e conveniências mesquinhas e paroquiais.

Note-se que foi precisamente a propósito da Universidade de Lisboa que um talentoso investigador português, vencedor do Prémio Pessoa e membro do júri do prestigiado Prémio Gulbenkian para a Humanidade, resumiu de forma particularmente devastadora aquilo que este modelo pode produzir, uma “burocracia cuidadosamente arquitetada para defender os interesses da mediocridade instalada”. E sobre a universidade do Porto é importante recordar que se trata de uma universidade onde há concursos para lugares de Associado, ganhos por candidatos com duas publicações indexadas e duas citações, onde há catedráticos com métricas absolutamente irrelevantes, e onde os próprios responsáveis máximos praticam actos que causam vergonha https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/05/a-extraordinaria-falta-de-vergonha-de.html

PS – Esta é, aliás, a altura ideal para revisitar a última e malfadada “avaliação” das unidades de investigação, onde pasme-se cerca de 75% das unidades de I&D foram classificadas como Muito Bom ou Excelente. Há qualquer coisa de grotesco num sistema que assim distribui excelentes e muito bons pelas suas unidades de investigação, enquanto as universidades portuguesas que reflectem o seu desempenho científico, desaparecem do Top 300 de Shanghai e o país fica atrás da Argentina. Quando quase todos são “Muito Bons” ou “Excelentes” e os resultados internacionais são estes, talvez o problema não esteja apenas na ciência portuguesa, mas também numa pseudoavaliação transformada numa máquina de legitimação da mediocridade. Seria por isso saudável que os responsáveis por um processo onde as métricas foram proibidas e as classificações máximas abundaram fossem obrigados a ler e, se necessário, a reler até conseguirem perceber, se é que tem a capacidade para isso, o recente artigo de três professores catedráticos, incluindo um ex-reitor, em defesa do uso sério de métricas, que divulguei a 10 de agosto. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/08/bibliometrics-makes-mediocrity-harder.html

O erro do Presidente da DST

A determinada altura da sua extensa entrevista publicada no último número da revista Visão, o conhecido Presidente da DST afirma pretender trabalhadores livres, criticando os do género obediente que na sua opinião significam o caos numa empresa. Tal afirmação assenta, porém, num erro evidente. Com efeito, e ao contrário do que ele afirma são precisamente os trabalhadores livres que podem gerar o tal “caos” que, como observou o já falecido Engenheiro Conselheiro Renato Morgado, também catedrático da Universidade do Minho, no artigo Prevendo o futuro, publicado na revista da Ordem dos Engenheiros, que se revela indispensável ao sucesso das organizações. Esse artigo, aliás, reproduzi-o num post que curiosa e inesperadamente viria a tornar-se o 6º (sexto) mais visto de sempre do meu primeiro blogue. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/academia-portuguesa-necessita-de.html

Há porém uma área em Portugal onde a obediência constitui um requisito absolutamente fundamental, pelo menos a acreditar nas palavras de um catedrático da Universidade de Lisboa que escreveu “é a obediência, quando não a mediocridade, que são recompensadas” na progressão na carreira académica”. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/04/9-euros-e-quanto-custa-o-livro-sobre-os.html As duas perguntas que nesse contexto particular se impõem são, por isso, tão incómodas quanto inevitáveis: que probabilidade têm professores promovidos pela obediência de conseguir formar alunos livres, críticos e intelectualmente independentes? E quanto é que custa a Portugal, em inovação adiada e atraso estrutural, essa cultura de submissão?

Declaração de interesses – Faço notar que esta não é a primeira vez que critico o mediático Presidente da DST, em boa verdade também já o tinha feito aqui https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/12/uma-critica-suave-ao-presidente-da-dst.html

Um feito invulgar que revela, acima de tudo, a mediocridade estrutural de Portugal

O caderno principal do semanário Expresso divulga uma entrevista a uma estudante de medicina da universidade do Porto, que se tornou na primeira Portuguesa a atingir o nível de Grande Mestre feminina de Xadrez. O feito que merece parabéns mostra porém o nosso grande atraso, pois a vizinha Espanha teve a primeira GM feminina há mais de 30 anos, o mesmo também tendo sucedido com a Islândia, esse colosso geográfico, sobre o qual há poucos anos produzi um post cujo conteúdo continua ainda hoje a ser humilhante para o orgulho nacional. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/04/o-misterio-dos-306-evaporados-grandes.html

Na referida entrevista o Presidente da Federação Portuguesa de Xadrez queixa-se da falta de apoios, pois segundo ele esta modalidade, não é levada tão a sério pelo Governo, como outras rasteiras modalidades. Nada de surpreendente, já que o xadrez, ao contrário da famosa e indigente modalidade do pontapé e da cabeçada num esférico (desprezada por um escritor famoso), para onde os Governos canalizam avultados recursos públicos, não se limita ao esforço físico nem à catarse coletiva. Exige, isso sim, disciplina mental e pensamento crítico, qualidades que, neste país, infelizmente são vistas com desconforto e até com bastante desconfiança.

PS – O facto de a pequena Islândia apresentar um rácio de investigadores no Top 0,5% do ranking de Stanford por milhão de habitantes que é 300% superior ao de Portugal, ter um PIB per capita que é quase 300% superior ao rácio português e conseguir pagar salários médios superiores a 5000 euros, mostra bem e até com alguma brutalidade, o elevadíssimo preço de no nosso país se ter andado durante tantos anos a promover a indigência e a mediocridade e a descriminar a disciplina mental e o pensamento crítico. 

Examining productivity gaps in American research universities

A recent large-scale study by three scholars from Hebrew University of Jerusalem, published in the journal Higher Education, analyzes fifteen years of longitudinal publication data for more than 310,000 faculty members across American research universities nationwide. One of its central findings is that between 32% and 47% of all career years include zero publications, as defined by the authors, which they somewhat dramatically describe as an “annus horribilis.” https://link.springer.com/article/10.1007/s10734-026-01665-7

This conclusion, however, depends on a relatively narrow definition of research productivity. The study equates productivity with outputs indexed in specific bibliometric databases—namely journal articles listed in CrossRef and books catalogued by Baker & Taylor. Such a definition excludes a wide range of legitimate scholarly contributions. These include conference proceedings (which are often the primary dissemination channel in fields such as computer science and engineering), as well as working papers, preprints, policy reports, datasets, software, technical reports, book reviews, and other forms of scholarly and public engagement.

A similar limitation appears in the study’s treatment of research funding. Funding is measured exclusively through federal grants in which a faculty member is identified as Principal Investigator. This approach excludes other significant sources of research funding, including internal university funding, private foundation grants, industry-sponsored research, international funding agencies, and sub-awards in which a scholar participates as a co-investigator. Smaller-scale funding mechanisms, such as fellowships and travel grants, are also not considered, despite their importance in sustaining research activity.

Finally, the study does not adequately address differences in publication practices across disciplines. Patterns of scholarly production vary considerably between fields. In the humanities, for instance, the monograph often serves as the primary form of scholarly output and may require several years of sustained work. By contrast, fields such as the biomedical sciences typically involve large collaborative teams that produce multiple articles annually. 

Taken seriously, these limitations collapse the central claim. The “productivity crisis” reads less as a discovery than as a byproduct of poorly specified metrics. Before advancing any further conclusions, the three Israeli scholars need to show that their measurement strategy is not fundamentally miscalibrated. In this context, it may be worth revisiting my earlier letter, “The Illusion of Scientific Talent Identification Through Publication Counts.” 

A perigosíssima criatura que a engenharia criou mas que o público não pode ver

Há poucos dias, a firma de IA Anthropic, famosa por ter enfrentado as exigências de Trump, anunciou ao mundo o modelo Mythos, mas revelou que por conta da sua elevada perigosidade não iria disponibilizá-lo ao público, já que testes internos evidenciaram uma capacidade inédita do referido modelo conseguir identificar e explorar vulnerabilidades críticas em sistemas operativos e navegadores web, incluindo falhas antigas que os peritos humanos não tinham sido capazes de detectar. A Anthropic revelou ainda que o modelo Mythos conseguiu escapar do próprio ambiente criado para o conter, o que agrava a sua perigosidade. Ou seja, pela primeira vez na história da inteligência artificial, uma empresa de IA olhou para a sua “criatura” e decidiu que o mundo não estava preparado para a ver.

O perigoso modelo de IA Mythos levanta desde logo uma questão incontornável, com implicações diretas no mercado de trabalho, que utilidade existirá agora na contratação de especialistas humanos em vulnerabilidades cibernéticas, se milhares desses profissionais, ao longo de décadas, não conseguiram detetar o que este modelo foi capaz de detectar em tão pouco tempo?

E muito embora a decisão da Anthropic possa ser interpretada como bastante prudente, já que um sistema capaz de transformar fragilidades técnicas em formas de ataque acessíveis a qualquer pessoa representa um risco sistémico real ela levanta uma questão mais profunda, a normalização de um padrão em que empresas privadas de inteligência artificial decidem, em silêncio, o que a sociedade pode ou não utilizar e também aquilo que pode ou não conhecer.  Acresce que o episódio de fuga do ambiente de contenção não aponta apenas para uma falha de segurança  aponta para algo bastante mais grave, a emergência de comportamentos autónomos não previstos pelos próprios criadores. Como reconheceu de forma bastante honesta a própria empresa Anthropic, ela, não treinou o modelo Mythos para vir a ter essas capacidades, sendo aquelas antes um efeito inesperado das melhorias globais em código, raciocínio e autonomia. 

Ainda assim, a postura prudente da Anthropic é, no fundo, apenas um paliativo, pois é excessivamente optimista acreditar que nunca no futuro nenhum modelo de IA com as mesmas capacidades ou até com capacidades superiores às do modelo Mythos chegue às mãos erradas. Seja por fuga de informação, seja por simples inevitabilidade tecnológica, trata-se, muito provavelmente, apenas de uma questão de tempo. E quando isso acontecer, o risco não será abstracto. Poderá incluir ataques a bancos, a redes eléctricas, a hospitais, a sistemas de controlo aéreo, etc etc etc, infra-estruturas cujo colapso não se medirá somente em prejuízos financeiros, mas potencialmente em milhares de vidas. 

PS – Mas se nem os próprios governos conseguem hoje saber, em tempo real, que perigosas criaturas estão silenciosamente a ser geradas por empresas privadas de inteligência artificial, como poderão sequer alguma vez conseguir regular aquilo que não conhecem para assim tentar proteger os seus cidadãos de riscos graves e potencialmente catastróficos que, quando forem públicos, já podem ser absolutamente irreversíveis?