Em Julho de 2022 denunciei que o Ministério da Educação tinha deixado de exigir informação essencial para identificar os colégios privados que inflacionavam as classificações dos seus alunos. Vide post acessível no link supra. O director-geral responsável pelas estatísticas da educação respondeu na altura com a cândida esperança de que os colégios “agissem de forma honesta”. Quatro anos depois, o resultado desta fiscalização de sacristia está à vista. Como o Governo se recusa a recolher os dados necessários para explicar o fenómeno, só nos resta concluir que o aquecimento global também chegou às pautas e está a provocar uma subida vertiginosa da temperatura das notas, curiosamente, com especial intensidade nos colégios privados.
Segundo noticia hoje o jornal Público, existem 38 colégios privados nos quais pelo menos 30% dos alunos obtiveram 19 ou 20 valores a todas as disciplinas. Não apenas numa disciplina, nem somente entre alguns alunos excepcionais, a todas as disciplinas. Nas escolas públicas não existe nada comparável. Portugal parece ter descoberto uma prodigiosa fábrica de génios que, por uma coincidência verdadeiramente espantosa, só funciona atrás de portões onde se pagam propinas.https://www.publico.pt/2026/08/27/sociedade/noticia/ha-alunos-notas-altas-38-colegios-menos-30-estudantes-19-20-2186298?ref=hp&cx=manchete_2_destaques_0
Infelizmente a DGEEC não publica, escola por escola, a diferença entre as classificações internas e as notas dos exames nacionais dos alunos que recebem 19 e 20. Também não conhece adequadamente o perfil socioeconómico dos alunos dos colégios, porque estes não fornecem essa informação e o Estado não tem a coragem de os obrigar a fazê-lo. Esta ignorância não é acidental nem inevitável, foi deliberadamente construída pelo poder político. O Governo conhece a suspeita, dispõe dos meios para a esclarecer e, apesar disso, escolhe manter na sombra os dados que permitiriam saber quem está efectivamente a ensinar melhor e quem pode estar simplesmente a inflacionar as notas.
Quando sucessivos governos conhecem uma anomalia desta gravidade e recusam-se a criar os instrumentos necessários para a investigar, já não basta falar de negligência, cobardia ou incompetência. Estamos perante uma cumplicidade institucional por omissão. A ausência de fiscalização não é neutra, favorece objectivamente os estabelecimentos que eventualmente inflacionam classificações e as famílias que podem pagar para aceder às vantagens daí resultantes. O Ministério da Educação, que deveria garantir a igualdade no acesso ao ensino superior, transformou-se no guardião da opacidade que pode estar a corromper essa igualdade.
Talvez o Governo acredite que estes 38 colégios foram atingidos simultaneamente por uma vaga súbita de genialidade multidisciplinar. O problema é que estas classificações não são medalhas decorativas, elas decidem quem entra e quem fica à porta do ensino superior. Em cursos como Medicina, algumas centésimas podem entregar uma vaga ao aluno protegido pela pauta mais generosa e retirá-la a um outro verdadeiramente mais bem preparado e mais merecedor. Quando o Estado permite que classificações atribuídas sem escrutínio suficiente decidam essas vagas, deixa de ser um espectador inocente, torna-se participante num sistema que está a premiar apenas o dinheiro em vez do mérito.
Em 2022, perguntei quantos jovens de famílias pobres seriam ultrapassados no acesso ao curso de Medicina por alunos beneficiados por notas inflacionadas. Em 2026, o Governo continua sem responder porque escolheu não recolher nem divulgar os dados que permitiriam fazê-lo. Esta recusa protege alguém e certamente não protege os alunos que dependem exclusivamente do seu mérito. Em 2026, o Governo continua sem responder, porque escolheu não possuir os dados que permitiriam fazê-lo.
Trinta por cento dos alunos com 19 ou 20 valores a tudo em 38 colégios privados não é uma curiosidade estatística nem um efeito do aquecimento global, é a suspeita de uma fraude sistémica no coração do acesso ao ensino superior. Se houver alunos, e há certamente, a perder vagas porque outros receberam classificações artificialmente inflacionadas, não estaremos perante uma simples injustiça escolar, mas perante um roubo institucionalizado de oportunidades, praticado contra jovens cujo único “erro” foi não terem dinheiro para comprar o acesso ao colégio certo.
Deverá estar ligado para publicar um comentário.