Alguém no semanário Expresso achou boa ideia escrever sobre um ranking de cientistas elaborado por uma tal Research.com. Em má hora o fez. Antes de lhe oferecer publicidade, teria sido conveniente cumprir uma obrigação elementar de quem escreve num jornal, a de tentar perceber se aquilo que está a divulgar merece alguma credibilidade. Como esse trabalho ficou por fazer, torna-se agora necessário explicar a quem escreveu a notícia que um ranking de cientistas, para ser minimamente credível, tem de cumprir três requisitos fundamentais:
Primeiro – Ser baseado na Scopus ou na Web of Science, para assim permitir a desambiguação de publicações, pois existem milhares de perfis “contaminados” no Google Académico com publicações de outros autores e também para evitar o lixo “científico” de citações em publicações não revistas por pares, cujo número explodiu nos últimos anos. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/06/the-economistin-just-20-years-predatory.html
Segundo - Ser capaz de remover o efeito da terrível praga das auto-citações, em que muitos cientistas infelizmente se tornaram verdadeiros especialistas https://www.nature.com/articles/d41586-019-02479-7
Terceiro - Ser capaz de anular a vantagem artificial e perniciosa relativa às citações em publicações com centenas ou milhares de co-autores, utilizando para esse efeito a contagem fraccionada, sugerida pela primeira vez em 2008 pelo investigador Alemão Schreiber e mais recentemente por Koltun e outros. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/evaluating-researchers-in-fast-and.html
O tal pseudo ranking da Research.com consegue o espantoso milagre de não cumprir nenhuma destas condições. É o que se pode designar, sem insultar a inteligência dos leitores com eufemismos, por um ranking de tripla treta. Ninguém com um mínimo de discernimento deveria colocar no currículo uma boa classificação nesse ranking como se estivesse a apresentar uma distinção científica respeitável. Porém, o semanário Expresso achou boa ideia fazer-lhe publicidade e isso diz muito sobre aquele semanário. Um jornal que cobra aos leitores para os informar deveria ter vergonha de lhes vender, sob a aparência de notícia, a promoção de uma classificação que nem sequer soube escrutinar.
É difícil decidir se há aqui mais ironia trágica ou mais incompetência, quando o mesmo Expresso que agora faz publicidade à tripla treta da Research.com, nunca tenha dedicado uma única notícia ao ranking Elsevier–Stanford, o único à escala mundial cuja metodologia cumpre os três requisitos acima enunciados. Entre os autores dessa metodologia estão um conhecido catedrático da Universidade de Stanford, o especialista em bibliometria Jeroen Baas, e Kevin W. Boyack e Richard Klavans, que em 2023 receberam, a Medalha Solla Price, a mais alta distinção na área dos estudos quantitativos da ciência.
Declaração de interesses – Há alguns anos atrás, apresentei à ERC uma queixa sobre um artigo do Expresso relativo a unidades de investigação, que levou aquela entidade a concluir pela violação do dever de rigor informativo. É claro que agora o problema é outro: uma coisa é faltar ao rigor; outra é fazer publicidade à falta dele e ainda cobrar pelo serviço.
PS – A treta da lista da tal Research.com é uma iniciativa de Imed Bouchrika, professor de Informática na Argélia, cujo perfil na plataforma Scopus, apresenta um índice h de 14. Um impacto científico muito modesto para tamanha ambição classificativa. Pelos vistos, construir uma obra científica com impacto relevante exige bastante mais do que montar um ranking da treta e encontrar na imprensa Portuguesa mainstream quem lhe empreste, sem perguntas incómodas, a credibilidade que a sua metodologia não consegue conquistar.
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