É curioso, embora nada surpreendente, ler na imprensa internacional, como aqui ou aqui, que Portugal precisa de se adaptar à emergência climática, quase como se fossemos um país de indigentes. Não por acaso, há poucos anos editei, em conjunto com um idoso catedrático de uma reputada universidade da Suécia, um livro dedicado precisamente a esse tema, que, também sem qualquer surpresa passou despercebido no espaço mediático. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/07/o-contributo-da-investigacao-na-area-da.html
Tal invisibilidade não resultou certamente de falta de relevância científica ou social do tema, como agora desgraçadamente se percebe, mas antes de prioridades editoriais que continuam a privilegiar irrelevâncias. Afinal, é muito mais mediático saber qual foi o mais recente automóvel adquirido pelo Ronaldo (o tal que Montenegro em má hora disse que os Portugueses deviam copiar) ou qual a nova joia ostentada pela sua companheira Georgina, do que noticiar livros sobre estratégias de adaptação climática. A espuma mediática vende, o conhecimento exige atenção, e atenção é um recurso escasso quando a superficialidade domina a agenda. Porém aqueles que andaram a vender as tais banalidades deveriam agora ir perguntar ao Ronaldo, o que se lhe oferece dizer sobre a tragédia associada ás tempestades sucessivas que desgraçaram a vida a muitos milhares dos seus compatriotas.
Recordo que em 2019 critiquei uma lista infame na revista Visão sobre 29 ilustres Portugueses, onde abundavam vários nomes ligados ao pedestre e rasteiro mundo futebolístico, mas apenas um único cientista e absolutamente ninguém da área da engenharia. E em 2023 critiquei também uma lista não menos infame do Expresso, sobre 100 Portugueses extraordinários, onde, uma vez mais, a presença de nomes da ciência e da engenharia era meramente simbólica, um sinal claro do desdém persistente da imprensa do nosso desgraçado país por profissionais que são, de facto, pilares essenciais da prosperidade e da segurança nacional, especialmente no contexto da tragédia climática que nas últimas semanas se abateu sobre o nosso país e que a ciência já mostrou se irá agravar nas próximas décadas, como aliás facilmente se percebe pelas palavras cristalinas de um reputado cientista, diplomado por Harvard e doutorado pelo MIT, que agora trabalha na universidade Oxford, que afirmou de forma nada ambígua que “no que diz respeito à crise climática, sim, é tempo de entrar em pânico“, Pierrehumbert,R. (2019) There is no Plan B for dealing with the climate crisis, Bulletin of the Atomic Scientists, 75:5, 215-221.
Declaração de interesses – Declaro que tenho pouca consideração pelos profissionais do pontapé e da cabeçada, sobre os quais já escrevi, que acredito num futuro não muito distante, irão passar a ser pagos, pelo que realmente valem, em amendoins https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/07/o-futuro-chegou-mais-cedo-do-que-eu.html
PS – Há alguns dias atrás, mencionei o referido catedrático Sueco, Claes-Goran Granqvist, num post pouco suave, de titulo “Universidades Portuguesas: Premiar a inércia e a estagnação, castigar o mérito e condenar o país ao empobrecimento“ https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/universidades-portuguesas-um-modelo-que.html
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