Análise de 1759 artigos que mencionaram a utilização da IA generativa ChatGPT

Foi publicado muito recentemente na conhecida revista Scientometrics um interessante artigo que analisou quase 1800 artigos indexados na Web of Science e na Scopus, mencionando o ChatGPT, com vista a analisar os motivos da utilização desta ferramenta de IA Generativa. 

A esmagadora maioria dos casos detectados, referem-se à sua utilização para melhoria da qualidade do texto. A China, os EUA, a Alemanha e o Japão lideram os países cujos investigadores mais utilizaram o ChatGPT para esse fim. Outras utilizações aconteceram apenas de forma residual. Desde logo, e muito embora o ChatGPT tenha capacidades de programação, somente em 2% dos artigos foi utilizado para essa finalidade. Vide imagem supra. https://link.springer.com/article/10.1007/s11192-024-05193-y

O artigo alerta porém para a possibilidade do ChatGPT e outros modelos de IA generativa poderem estar a ser utilizados num número muito superior de artigos, sem que os seus autores admitam essa utilização. Para o efeito é citado o estudo de Gray (2024) que estimou em 1%, quase 60.000, o número desses artigos, através da detecção de palavras pouco comuns, que de repente viram a sua utilização ter um pico muito anormal e também o estudo de Kobak et al. (2024) que analisaram artigos de medicina na base PubMed e estimaram a utilização de IA generativa em mais de 10%  dos artigos publicados em 2024. 

Gray, A. (2024). ChatGPT” contamination”: estimating the prevalence of LLMs in the scholarly literature. arXiv preprint arXiv:2403.16887

Kobak, D., Márquez, R. G., Horvát, E. Á., & Lause, J. (2024). Delving into ChatGPT usage in academic writing through excess vocabulary. arXiv preprint arXiv:2406.07016.

U.Aveiro torna-se a 3ª melhor universidade Portuguesa no ranking Shanghai por áreas

Ainda na sequência do post anterior, acessível no link e em face dos resultados agora tornados públicos, através do prestigiado ranking Shanghai por áreas de 2024, https://www.shanghairanking.com/rankings/gras/2024  fica-se a saber, que infelizmente a Universidade de Coimbra, deixou este ano de ter qualquer área, no Top 100 do referido ranking.

A universidade do Porto, está de parabéns pois triplicou as suas áreas no grupo Top 100 de apenas 1 para três, ultrapassando a universidade do Minho, que tem o mérito de possuir duas áreas científicas no Top 100 (Eng. Biológica e Eng. Têxtil). Quem também está de parabéns é a universidade de Aveiro, pois não só entrou para o grupo Top 100 (melhor desempenho nacional na área da Eng. Biomédica), mas tem além disso 5 áreas no grupo 101-150, ao contrário da universidade de Coimbra e da UNova que só tem uma área cada uma nesse grupo e da UMminho que tem duas áreas. O presente resultado da universidade de Aveiro está em linha com o terceiro lugar nacional que obteve no ranking Shanghai de instituições que foi divulgado no passado dia 15 de Agosto.

Os resultados agora divulgados revelam também que entre as seis universidades Portuguesas mais competitivas, a Universidade Nova, foi aquela com pior desempenho relativo, já que perdeu 3 áreas face a 2023, o que ajuda a explicar a última queda daquela universidade para o decepcionante grupo 601-700, grupo onde há universidades de países do terceiro mundo. Particularmente decepcionante, na Universidade Nova, foi o estranho resultado da área científica, onde trabalha a catedrática (quase Nobel) Elvira Fortunato, que ao contrário de muitas outras áreas não pode sequer alegar falta de financiamento.

PS – Faço notar que a metodologia utilizada pelo ranking Shanghai por áreas sofreu alterações relativamente aos anos anteriores, quando era baseado apenas em 5 critérios, agora há 4 novos critérios que contabilizam inclusive o número de investigadores altamente citados e também os lugares de Editor Chefe em revistas científicas: “…introduces four new indicators: International Academic Award Laureates (Laureate), Highly Cited Researchers (HCR), Chief Editors of International Academic Journals (Editor), and International Academic Organization Leadership. http://www.shanghairanking.com/methodology/gras/2024

Paper – Leading Countries in Successfully Attracting and Retaining Nobel Laureates

Building on the previous post, accessible via the link above, which highlighted China’s recent recruitment of a French Nobel laureate, I’d like to share an insightful article from Research Policy. Written by researchers from Denmark and Germany, the study offers an in-depth analysis of the mobility patterns of 350 Nobel Prizes awarded in medicine, physics, and chemistry up until 2024. 

The findings reveal that nearly one-third of Nobel laureates were awarded their prizes in countries other than the ones where they were born, and over 43% received their awards while working at institutions different from those where their groundbreaking discoveries originally took place. The study further delves into how successful various countries have been at attracting future Nobel laureates, both prior to their discoveries and after they have made them (as illustrated in Fig. 12)  https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0048733324001999#s0035 

PS – In this context, it’s worth revisiting the previous post about the Nobel Prize winner’s advice to young scientists: to embrace a mindset of confident arrogance.

Universidades Portuguesas com áreas científicas no Top 100 mundial do ranking Shanghai

Amanhã será revelado o ranking Shanghai por áreas, de 2024, pelo que nessa altura, se ficará a saber como evoluiu (ou regrediu) a competitividade mundial das áreas científicas nas universidades Portuguesas. E também se as instituições de ensino superior que em 2023 possuíam áreas no Top 100 ainda continuam em 2024 a ser somente as sete que abaixo se listam

U.Lisboa………………….8 áreas no Top 100 de 2023

U.Minho…………………..2

U.Porto…………………….1

U.Coimbra…………………1 

ISCTE………………………1

UALG……………………….1

U.Pol. Bragança………..1

U.Aveiro……………………0

U.Nova……………………..0

Faço notar que nenhuma das restantes universidades públicas ou privadas, não listadas acima, possui qualquer área científica no top 100 do ranking Shanghai por áreas. Ainda sobre o ranking Shanghai revisite-se o post anterior de 15 de Agosto de título “A universidade Lisboeta que uma vez mais (vergonhosamente) se afunda no prestigiado ranking Shanghai”

PS – De qualquer forma e seja qual for o resultado que amanhã se ficará a conhecer, o facto é que ele também se fica a dever, mesmo que minimamente e nalgumas áreas, à rematada estupidez Portuguesa que foi criticada neste blogue, no passado mês de Julho.

The future of science publishing

Building on the previous post, “The Peer Review Conundrum: Advancing Academic Rigor with the RRR Algorithm,” linked above, it’s important to bring attention to a recent paper published in Cortex, an Elsevier journal, where the editors identify key challenges shaping the future of scientific publishing.

One of the foremost challenges is the growing strain on the peer review process. While automated tools, such as large language models (LLMs), offer the potential to streamline editorial workflows and expedite review processes, there are concerns that their use may lead to a superficial review quality, lacking the thoroughness traditionally provided by expert reviewers. Editorial board members are also facing difficulties in finding sufficiently qualified reviewers, as heightened pressures to publish rapidly and frequently have made it harder to attract and retain experienced reviewers willing to dedicate time to rigorous evaluation. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0010945224002727

PS – A few years ago, a bold and innovative solution was proposed to tackle the growing crisis in peer reviewing: journals should implement a policy of rejecting papers from authors who have published far more articles than they have contributed reviews https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/a-radical-solution-to-solve-crisis-in.html

Should the Scientific Community Ostracize Scientists Serving in Anti-Science Governments?

More than 70 million Americans have just voted to elect a man widely recognized as a liar and fraudster (found guilty on 34 felony counts) to the highest office in the nation. For some, this decision reflects a deep-seated resentment, with accusations that ‘America hates women’, while others attribute the support to widespread economic struggles. Regardless of the underlying reasons, one undeniable fact remains: in many other countries, someone with a legal and ethical record as controversial as his would-be disqualified from even running for office, let alone winning it. The fact that such a disgraceful figure could not only run but actually win in the United States (becoming the first former president convicted of felony crimes) is a gift to dictators worldwide, providing potent evidence to dismiss democracy as weak and deeply flawed.

In my opinion, the election of Donald Trump raises several troubling and pressing questions:

1- Since the majority of U.S. voters elected a liar, a fraudster, and a rapist as president, does that mean they have no minimum standard of decency?

2 – With Trump widely condemned as an enemy of science, are U.S. government scientists not merely complicit but active enablers in advancing his anti-science agenda?

3 – And as the global race for top talent accelerates—illustrated by France’s recent loss of a Nobel laureate to China—how many of the world’s leading scientists would still consider squandering their efforts to advance such a notorious agenda, all while upholding the facade of a decaying empire now led by a shameless fraud and unapologetic xenophobe?

PS – A few highlights from Trump’s “remarkable” resume include:

  1. Trump University was accused of fraud for misleading students about the value of its courses. In 2016, Trump settled this civil case for $25 million, admitting no wrongdoing.
  2. In 2018, the Trump Foundation was dissolved after the New York Attorney General’s office found that it had engaged in a “shocking pattern of illegality,”. Trump was ordered to pay $2 million in damages.
  3. In a civil fraud trial in New York (2023), a judge ruled that Trump repeatedly committed fraud by inflating property values on financial statements. 
  4. Journalist E. Jean Carroll sued Trump for defamation after he denied her claims of sexual assault, calling her a liar. In 2023, a jury found Trump liable for sexual abuse and defamation.
  5. Trump was indicted for mishandling classified documents. Federal prosecutors alleged that he took classified materials from the White House to his Mar-a-Lago residence, then obstructed efforts by the government to recover them. 
  6. Trump faces federal charges for his role in the events leading up to the January 6, 2021, attack on the U.S. Capitol, where he was accused of conspiring to obstruct the electoral vote certification and inciting violence among his supporters.
  7. In Georgia, Trump was indicted for allegedly attempting to overturn the state’s 2020 election results. This case includes the infamous phone call where he asked Georgia’s Secretary of State to “find” enough votes to change the outcome. He faces racketeering (RICO) charges and other related accusations.

Faz algum sentido que os contribuintes Portugueses tenham que financiar as universidades do país do Sr. Trump ?

Acaba de saber-se que este Governo decidiu que entre as suas prioridades não se inclui a de reduzir o subfinanciamento crónico da ciência, aliás, por incrível que pareça, pretende até mesmo agravar esse subfinanciamento, cortando quase 70 milhões de euros no orçamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Vide noticia acessível no link supra. 

O Ministro Fernando Alexandre, veio depois tentar “explicar” o referido corte, alegando mudanças na aplicação dos fundos europeus, mas na noticia onde se deu conta dessa fraca “explicação” há algo que a mim me parece que não tem qualquer explicação. Nela se pode ler que este Governo pretende “manter as parcerias com universidades norte-americanas e até a vontade de as reforçar https://www.publico.pt/2024/11/05/ciencia/noticia/ministro-ciencia-explica-corte-fct-mudanca-aplicacao-fundos-europeus-2110599

Ou seja no contexto de um inesperado e impensável corte de verbas no financiamento da ciência Portuguesa, a principal preocupação do Governo Português é a de manter o financiamento a Universidades do país do Sr. Trump ! Será que isso faz algum sentido? 

Declaração de interesses – Declaro que há quase uma década que tenho consistentemente criticado a decisão de gastar centenas de milhões de euros com parcerias com universidades Norte Americanas, pois que a meu ver os benefícios que daí resultaram são muito escassos face a esse elevado montante. Aproveito aliás para recordar aquilo que há vários anos atrás me foi confessado por um catedrático, da Universidade Nova de Lisboa: “as universidades daquele país só aceitaram as colaborações propostas pelo Ministro Heitor porque viram nelas uma maneira de ganharem dinheiro fácil”   https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/03/tres-singelas-perguntas-ao-ministro.html

PS – Incompreensivelmente (ou talvez não !), o Ministério dos policias teve um aumento bastante significativo, de quase 20%, atingindo agora mais de 3000 milhões de euros, o que mostra bem quais são as verdadeiras prioridades deste Governo https://www.jn.pt/7711471417/seguranca-interna-com-mais-de-3-mil-milhoes-euros-maior-fatia-vai-para-o-pessoal/

Primeiro edifício de construção híbrida em Guimarães vence categoria Sustentabilidade

A secção de Economia do semanário Expresso deu este fim de semana conta da sexta edição dos prémios Imobiliário, onde o edifício The First, construído pela firma Casais, junto ao campus de Azurém da Universidade do Minho, venceu na categoria Sustentabilidade

Trata-se de um edifício de seis pisos, com um custo de 11 milhões de euros, que é o primeiro edifício de construção híbrida (madeira + betão) em toda a Península Ibérica. O edifício em causa baseado na tecnologia BIM, utilizou módulos pré-fabricados, permitindo uma execução muito mais rápida, apenas 16 dias úteis para a montagem dos elementos CREE nos dois blocos, 8 dias para cada bloco, necessitando assim de menos mão de obra, consumindo um menor volume betão e que no futuro facilitarão a desmontagem e reutilização de materiais, assim contribuindo para reduzir a quantidade de resíduos e acelerando a economia circular.

Há duas formas de encarar esta noticia. A pessimista, que critica o facto de só agora, passados tantos anos, após se terem iniciado as primeiras investigações nesta área – as publicações sobre projecto para a desconstrução e reciclagem de materiais tem mais de 20 anos – é que elas começam finalmente a ser levadas à prática e a optimista, de que mais vale tarde do que nunca, e fazendo votos que tais práticas passem a ser o novo normal da indústria da construção, pois está a esgotar-se o tempo para que este sector consiga reduzir em mais de 50% as suas emissões de GEE e seja capaz de reciclar 70% dos seus resíduos.

PS – Coincidentemente, terminei de editar no final do mês passado, com alguns catedráticos estrangeiros, a terceira edição de um livro sobre reciclagem de resíduos de construção e demolição, contendo também capítulos sobre BIM e sobre projecto para desmontagem posterior, que será publicado no inicio de 2025. A primeira edição desse livro, contendo 24 capítulos, foi publicada há mais de uma década e tornou-se, entre aqueles que foram selecionados para indexação na Scopus, de longe, o mais citado a nível mundial, nessa área.  https://shop.elsevier.com/books/handbook-of-recycled-concrete-and-demolition-waste/pacheco-torgal/978-0-85709-682-1

Revisitar a imparável epidemia de corrupção

Em 2019 o impoluto Ex-Presidente Ramalho Eanes afirmou que havia uma epidemia de corrupção em Portugal, e eis que agora, cinco anos passados o referido ex-presidente reafirma aquilo que disse nessa altura, apontando o dedo ao PSD e ao PS, que corajosamente acusa de terem colonizado a Administração Pública https://www.rtp.pt/noticias/politica/ramalho-eanes-em-livro-apos-entrevista-de-fatima-campos-ferreira_v1612059 

Quem não se lembra aliás daquela laranjinha que foi apanhada numa escuta a exigir ser Administradora de uma “merda” qualquer ou daquele outro boy que também foi apanhado numa outra escuta a dizer que queria ser presidente de uma empresa (pública) qualquer. E foi exactamente isso em que o PS e o PSD conseguiram transformar a Administração Pública, basicamente e acima de tudo numa fonte de rendimento para boys e girls, que é aquilo que se extrai das muitas escutas onde foram apanhados muitos dos parasitas que os contribuintes deste país são obrigados a sustentar e que as corajosas palavras do Ex-Presidente Ramalho Eanes também confirmam.

Declaração de interesses – Declaro que tendo iniciado o meu primeiro blogue há cinco anos atrás, que desde essa altura fiz dezenas de post sobre corrupção, tendo o último deles sido publicado no passado dia 5 de Outubro sob o título Mais um prego no caixão da justiça e desta coisa a que chamam democracia mas que se deveria chamar corruptocracia” 

Director da F.C. da Universidade de Lisboa critica doutoramentos nos Politécnicos

Ainda sobre o post anterior, onde se deu conta que o ensino superior Politécnico tem no seu todo apenas um valor residual de 3% dos 633 investigadores mais citados de Portugal (e muitos Politécnicos nem sequer possuem um único desses investigadores) não deixa de ser uma curiosa coincidência que o Director da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o catedrático Luís Carriço, tenha dado uma entrevista ao semanário Nascer do Sol, onde tece criticas várias sobre o ensino superior, como por exemplo quando critica o desnorte que pautou a acção da antiga Ministra Elvira Fortunato, tendo acabando a entrevista a criticar o facto dos Institutos Politécnicos poderem atribuir o grau de Doutor. 

Concordo com a opinião dele, especialmente na parte em que ele disse que em Portugal há universidades a mais e politécnicos a mais e que é necessário avaliar de forma rigorosa para se conseguir separar o trigo do joio, que não é muito diferente daquilo que já tinha sido escrito por um conhecido catedrático da universidade do Minho, que criticou a asfixia financeira das universidades mais dinâmicas,  levada a cabo pelo anterior Governo, processo a que ele na altura apelidou de mexicanização do ensino superior.