O Governo de Portugal prepara-se para uma guerra que nunca acontecerá e ignora a única guerra que é 100% certa

https://expresso.pt/sociedade/meteorologia/2026-01-28-depressao-kristin-psp-pede-a-populacao-de-coimbra-e-leiria-para-ficar-em-casa-um-morto-e-850-mil-clientes-sem-eletricidade-77139519

Com mortes já confirmadas, quase um milhão de portugueses sem eletricidade, milhares de habitações destruídas e uma rede rodoviária em colapso, o país atravessa horas de pânico e o Governo viu-se inclusive forçado a apelar à permanência da população em casa, num cenário de emergência que, como descreve o Expresso, faz lembrar um país sob ataque, quase como se estivesse a ser atingido por mísseis de um exército invasor. Mas nesta “guerra” os milhares de milhões de euros já gastos pelo actual Governo em equipamento militar, um desperdício doze vezes superior ao valor do investimento público em Ciência,  não servem para salvar vidas ou proteger pessoas, revelando-se absolutamente inúteis.

E é precisamente neste quadro de devastação que se torna impossível ignorar as consequências de um importante estudo de investigadores alemães, segundo o qual estes fenómenos não são raros nem exceções meteorológicas, são, muito pelo contrário, um ensaio geral daquilo que ameaça tornar-se nas próximas décadas uma rotina trágica. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/09/artigo-de-investigadores-alemaes-ajuda.html

O que aí vem nos próximos anos provocará uma enorme destruição à escala de uma guerra, mas esta não será provocada pela Rússia. Virá de fenómenos atmosféricos extremos, associados a um colapso climático. E perante isto o Governo Português optou, erradamente, por se preparar para uma invasão russa que não chegará nunca, até porque aquele país está economicamente à beira do colapso, enquanto ignora a única guerra que Portugal terá de enfrentar, cuja probabilidade de ocorrência é de 100%, contra a crise climática. Uma guerra que não se combate com misseis, com drones ou tanques blindados, mas com Ciência, investimento público e políticas de adaptação e resiliência climática de longo prazo.

Desde logo, este Governo já há muito que deveria ter criminalizado qualquer licenciamento autárquico de novas edificações em zonas de risco, nomeadamente em zonas propicias a deslizamentos de terras, em zonas inundáveis, em zonas costeiras ou áreas diretamente expostas à subida do nível do mar, relativamente às quais faz sentido revisitar a frase: “os contribuintes deste país serão obrigados a pagar milhões para evitar que o mar engula “apartamentos a preços milionários, construídos quase em cima do mar.”

PS – A gravidade dos supracitados fenómenos climáticos extremos tem, paradoxalmente, uma enorme virtude: expõe de forma inequívoca a vacuidade e a indigência do programa político do partido liderado por André Ventura, um programa negligente e incompetente, em que a emergência climática é totalmente ignorada e no qual não se encontra uma única linha, proposta ou visão, por mínima que seja, num vazio programático absoluto, sobre o que o nosso país deve fazer de imediato para prevenir ou mitigar consequências que agora já são bastante devastadoras, mas que ameaçam tornar-se muito mais destrutivas no futuro.

A minha discordância sobre a opinião de três catedráticos, que negligenciam a probabilidade da IA poder prejudicar uma elevada percentagem de estudantes

Depois do catedrático Luís Aguiar-Conraria, da Universidade do Minho, ter aproveitado a sua coluna semanal no Expresso para criticar duramente o grupo de professores universitários que assinou o polémico manifesto apelando à proibição da Inteligência Artificial no ensino superior, surgiram hoje, nas páginas do Público, posições que reforçam essa leitura. Esse apoio veio da catedrática Elvira Fortunato, da Universidade Nova e ex-ministra da Ciência e do Ensino Superior, e também do catedrático Paulo Ferreira, da Universidade de Aveiro, na sua qualidade de presidente do CRUP.

Contudo, nos artigos destes três valentes “mosqueteiros” catedráticos ficou por reconhecer algo absolutamente essencial, que limita fortemente a utilização da IA no ensino superior em Portugal. Trata-se precisamente do tal constrangimento que, como já tinha comentado anteriormente, também inviabiliza a tal solução pedagógica “milagrosa” defendida pelo catedrático da Universidade de Harvard, Eric Mazur, e que é o facto inegável de nenhuma das referidas abordagens conseguir funcionar sem professores extraordinários. https://pachecotorgal.com/2026/01/17/catedratico-questiona-por-que-razao-vou-contratar-um-jovem-caro-e-inexperiente-se-posso-utilizar-a-ia-para-fazer-o-trabalho/

Quando essa base não existe, como acontece em Portugal, onde as estatísticas mostram que a maioria dos docentes possui apenas licenciatura ou mestrado, tanto as pedagogias que se revelaram eficazes com docentes de excelência como a própria IA tendem a produzir o efeito contrário. Em vez de ajudarem o alunos, irão na maioria dos casos promover a superficialidade, institucionalizar o erro e banalizar a mediocridade. Longe de elevar a qualidade do ensino, a IA acabará por revelar, com raras e honrosas exceções, de forma ainda mais implacável, as debilidades profundas do corpo docente da Academia Portuguesa.

Se alguém como o supracitado catedrático Aguiar-Conraria, que conseguiu atingir o topo da carreira académica e cuja obra científica recorde-se até já foi citada por vencedores de prémios Nobel, reconhece que “não é fácil” e que ele próprio ainda não domina a inteligência artificial e admite também que essa competência é absolutamente essencial para “ajudar os estudantes”, torna-se então manifestamente legítimo questionar como se pode esperar que milhares de docentes, com qualificações inferiores, que nem sequer conseguiram obter um diploma de mestrado ou de doutoramento, venham a adquirir essa competência de forma rápida e generalizada ?

PS – Tendo em conta a sólida reputação da Finlândia na área educativa, onde a carreira de professor tem um elevado prestigio social e o modelo educativo não muda sempre que muda o Governo, como infelizmente acontece em Portugal, pesquisei na plataforma Scopus a publicação científica mais citada, dos últimos 12 meses, com autoria de investigadores daquele país, na área da inteligência artificial e educação, tendo descoberto um estudo, que também envolve investigadores de outros países, onde se alerta para o perigo da adoção prematura de ferramentas de IA generativa em contextos educativos, quando esta ocorre sem uma ponderação aprofundada da eficácia, das implicações sistémicas, das dimensões éticas e da robustez pedagógica dessas práticas. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/0144929X.2024.2394886#abstract

Mas afinal quem é que fala a verdade ? O CEO da bilionária Feedzai ou o Governo Português ?

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/01/teletrabalho-cronotipos-e-o-caso-do.html

No post anterior, acessível através do link supra, onde mencionei o fenómeno sui generis e inspirador da capacidade de atração da pequena cidade do Fundão, foi referida a importância da Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026, de 8 de janeiro, que aprovou a Agenda Nacional de Inteligência Artificial. Esse documento identifica uma lista de várias vantagens competitivas de Portugal, onde se pode ler, no ponto 1.7, que existe no nosso país: “…ecossistema de startups, contando com um total de 5091 empresasO segmento de IA destaca-se pelas 552 empresas cuja atividade nuclear envolve o uso desta tecnologia… representando um valor empresarial de 25 mil milhões de euros. Destaca-se, ainda, que seis dos sete unicórnios portugueses têm IA no centro dos seus serviços e operações.”

Mas como é que é possível compatibilizar esses valores com as recentes e perentórias declarações do diplomado em engenharia informática Nuno Sebastião, CEO da Feedzai (empresa avaliada em quase 2000 milhões de dólares), ao semanário Expresso, segundo as quais “em Portugal só existem duas empresas portuguesas cujo negócio assenta em IA — a Feedzai e a Sword Health”?  Mas mesmo que se admita que a afirmação do CEO da Feedzai se restringisse somente ao universo dos unicórnios, isto é, às empresas com uma valorização superior a mil milhões de dólares, ainda assim tal não confirma os números apresentados pelo Governo.

Acresce que na supracitada Resolução é também afirmado que Portugal é o terceiro país da União Europeia com maior cobertura de fibra ótica, e também o terceiro país na UE em percentagem de estudantes em áreas de engenharia, valores para os quais não encontrei estatísticas oficiais.  E No ponto 1.6 da mesma pode ainda ler-se que existe uma: “Predisposição elevada para adotar IA, com quase 90 % dos portugueses a acreditar que a IA torna a sua vida mais fácil”, afirmação que é sustentada num estudo da Netsonda de Maio de 2025. Estes resultados, porém, não coincidem com os de um outro estudo, mais recente, desenvolvido no âmbito de um projeto apoiado pela Fundação “la Caixa” (FP24-2B), relativamente ao qual o investigador Pedro Magalhães afirmou existir um número muito maior de portugueses relutantes do que entusiasmados em relação à IA.

PS – O post anterior, referido no início deste texto, mencionava uma notícia sobre os cronótipos, que permitem identificar o período do dia em que um indivíduo apresenta melhor desempenho profissional. Pois bem, por uma feliz coincidência, uma startup fundada por uma investigadora portuguesa que trabalha numa universidade alemã voltou ontem a merecer atenção pública ao ser novamente premiada. O reconhecimento decorre do desenvolvimento de uma tecnologia avançada que possibilita a quantificação do relógio biológico humano ao nível molecular, através da análise dos genes associados aos ritmos circadianos. Esta inovação abre perspetivas quase revolucionárias de aplicação em domínios como a medicina personalizada, a psicologia, a ciência do desporto e a organização temporal do trabalho. A abordagem integra um teste de saliva com modelos matemáticos e algoritmos de inteligência artificial, permitindo deslocar o conceito de cronótipo de uma categorização comportamental para um marcador biológico personalizado. https://www.publico.pt/2026/01/18/ciencia/noticia/startup-investigadora-portuguesa-vence-premio-alemanha-2161531

Professor catedrático questiona: Por que razão vou contratar um jovem caro e inexperiente se posso utilizar a IA para fazer o trabalho?

https://pachecotorgal.com/2025/05/27/pessimas-noticias-para-recem-diplomados-relatorio-mostra-que-dezenas-de-milhoes-de-empresas-preferem-apostar-na-i-artificial/

Na sequência de um post anterior de Maio de 2025, acessível no link supra, intitulado “Péssimas notícias para recém-diplomados: relatório mostra que dezenas de milhões de empresas preferem apostar na inteligência artificial”, faz agora todo o sentido divulgar uma entrevista particularmente interessante que o catedrático Eric Mazur, da prestigiada Universidade de Harvard, concedeu ao jornal Público e que hoje integra a edição impressa daquele diário, entrevista essa de onde retirei a questão que dá título a este post. 

O catedrático Eric Mazur desenvolveu um método de ensino que substitui as aulas expositivas tradicionais por um modelo de aprendizagem activa centrado nos estudantes. Neste método, a transmissão de conteúdos ocorre antes da aula, sendo o tempo presencial dedicado a perguntas, reflexão individual, discussão entre pares e argumentação. 

Tenha-se presente que uma pesquisa no seu perfil de investigador, na plataforma Scopus, que permite saber que o catedrático Mazur é titular de um h-index=75, revela que a sua segunda publicação mais citada de sempre, é precisamente sobre o referido método de ensino inovador: Peer Instruction: Ten years of experience and results” https://www.scopus.com/authid/detail.uri?authorId=7005375930

Pessoalmente, entendo que a primeira crítica substantiva ao método do catedrático Eric Mazur incide sobre a sua viabilidade prática. Em contextos de ensino com centenas de estudantes, o método revela-se inaplicável, porque as suas próprias premissas pedagógicas assentam numa interação e proximidade entre professor e aluno que são incompatíveis com o ensino massificado. A este propósito, atente-se na descrição seguinte feita por uma professora, que ilustra de forma clara o referido constrangimento: “Depois da minha primeira aula para uma plateia de mais de 700 pessoas, uma estudante esperou pacientemente para se apresentar. Ela confessou que me queria me conhecer porque, do lugar dela no fundo da sala, eu ‘parecia uma formiga’.” https://teaching.resources.osu.edu/teaching-topics/teaching-large-enrollment-courses

O artigo não o refere, mas importa ressalvar, porque isso é evidente, que o método referido assenta numa premissa fundamental: exige docentes com um domínio profundo da matéria que lecionam, e que sejam também capazes de compreender as dificuldades conceptuais típicas dos estudantes, antecipar os seus erros mais frequentes e ainda a capacidade de formular perguntas que estimulem o pensamento crítico e a reflexão. Exigindo por isso docentes bastante diferentes daqueles docentes que no ano passado se tornaram noticia por conta de “pérolas pedagógicas” inspiradoras como aquelas que abaixo se reproduzem:

“não vou explicar porque não vai perceber” 

“Quem não teve mais de 15…pode sair e trabalhar no Pingo Doce” 

Acresce que uma pesquisa no site da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, relativa ao Perfil do Docente do Ensino Superior – 2024/2025, revela que vários milhares de docentes do ensino superior possuem apenas o grau de licenciatura e que por uma feliz coincidência, o jornal Público noticia hoje que mais de 40% dos docentes do ensino superior, representando milhares de docentes, não possuem doutoramento. E, se levarmos ainda em linha de conta que mesmo entre muitos doutorados é frequente não se verificar um domínio profundo da matéria em que alegadamente se especializaram (basta olhar para aqueles com um h-index=0, incapazes de produzir um único artigo científico credível, como aquele professor que a Universidade do Porto despediu, tornam-se evidentes as dificuldades em tentar aplicar o método pedagógico do catedrático Eric Mazur ao ensino superior português. 

PS – Há duas formas de encarar o desmotivador contexto atual em que muitos empresários, especialmente lá fora, porque por cá o talento é escasso, optam por não contratar recém-diplomados, por considerarem que estes não oferecem um valor superior ao da inteligência artificial. Uma é a visão fatalista, resignada, ao estilo do fado lusitano. A outra muito mais inspiradora aconselha a aproveitar a oportunidade que isso representa. Muitos recém-diplomados possuem algo que a IA não tem: uma elevada propensão ao risco e essa virtude permite-lhes aspirar a mais do que simplesmente trabalhar por conta de outrem. Assim, a relutância dos empresários em contratar jovens recém-diplomados pode, paradoxalmente, transformar-se numa oportunidade para um aumento substancial do número de startups, como foi o caso do agora famoso doutorado da Univ. de Aveiro, que se tornou multimilionário, juntamente com vários outros colaboradores da empresa que fundou. E mesmo que que essa aventura empresarial acabe por ser um fracasso económico, é mais fácil para um jovem recém-diplomado, conseguir um emprego numa empresa estrangeira, tendo no currículo uma experiência empresarial mal-sucedida do que tendo apenas um diploma académico.

When Generative AI Meets Inequality and Kleptocracy on a Path Toward Global Terror

https://pachecotorgal.com/2023/09/17/the-economist-ai-can-accelerate-scientific-processes-and-also-revolutionize-the-practice-of-science/

In a previous post from September 2023 (linked above), I discussed new findings from an Economist article describing how artificial intelligence could transform scientific research through tools such as literature-based discovery and so-called “robot scientists.” I also warned that these AI-driven advances could have unintended consequences. In particular, they may disproportionately benefit wealthy countries, widening existing global economic inequalities and undermining the UN Sustainable Development Goal of reducing inequality. Such growing disparities could, in turn, intensify migration pressures from poorer regions to richer ones.

More recently, a paper entitled “Who on Earth Is Using Generative AI?”, published in the Elsevier journal World Development, provides the first comprehensive global analysis of individual-level adoption of generative AI. The study finds that country-level generative AI usage intensity is strongly correlated with both the coverage and quality of digital infrastructure. It further shows a pronounced concentration of usage across income groups: in early 2024, middle-income economies accounted for roughly half of global ChatGPT traffic, while low-income countries together contributed less than one percent. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0305750X25003468

Generative AI risks locking in global inequality rather than breaking it. Unlike earlier digital revolutions that lowered barriers and allowed poorer countries to leapfrog stages of development, AI rewards those who already possess advanced infrastructure, skilled labor, and strong institutions, effectively raising the threshold for participation and pushing many low-income economies to the margins. Research by scholars at UC Berkeley and Harvard University suggests that access to AI support delivers greater benefits to highly skilled entrepreneurs and professionals than to lower-skilled users.  https://journals.aom.org/doi/abs/10.5465/AMPROC.2024.380bp

As AI-driven gains concentrate in wealthy and upper-middle-income countries, global income and opportunity gaps will widen, intensifying migration pressures and economic fragility in already vulnerable regions. The result is not merely economic divergence, but rising financial instability and geopolitical tension that inevitably spill across borders. This is precisely what the world does not need as Donald Trump’s return to power amplifies geopolitical turbulence, undermines international coordination, and ushers in an era of policy volatility and institutional strain—at a moment when global cooperation is already under severe stress.

Preventing AI from entrenching global inequality demands forceful and forward-looking policy choices. Rich countries and major technology firms must stop treating AI as a private advantage and instead recognize it as a shared global capability. This means investing seriously in digital infrastructure and education in poorer regions, enabling meaningful technology transfer, and keeping core AI tools open, affordable, and adaptable to local needs. If governed with ambition and solidarity, AI can become a catalyst for shared prosperity rather than a force that condemns billions to permanent exclusion from progress.

Declaration of competing interests — In January 2019, I advanced a deliberately abrasive proposition: that wealthy countries should admit one African migrant for every €250,000 extracted from Africa by its kleptocratic elites over the past fifty years. Even under conservative estimates, the magnitude of this crime is stark, well over ten million Africans would qualify for asylum in rich countries. These are not appeals to charity, but claims grounded in moral debt: individuals whose admission wealthy nations owe as a matter of justice. By this reckoning, Switzerland alone would be obligated to grant asylum to more than one million African migrants.

PS — In this context, it is important to recall a previous post highlighting how income inequality and poor living conditions can fuel terrorism and radicalization. It draws on a 2019 study by Krieger and Meierrieks, based on data from 113 countries, which identifies a clear link between inequality and terrorism. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/09/2019-paper-by-german-researchersincome.html

Uma tragédia científica: Será que Portugal nunca conseguirá ultrapassar a Grécia ?

Há poucos meses, várias universidades públicas portuguesas, como a Universidade do Porto, a Universidade de Coimbra e a Universidade NOVA de Lisboa, congratularam-se com o aumento do número de investigadores incluídos no conhecido ranking Elsevier-Stanford relativamente à edição do ano anterior. Contudo, aquilo que ficou por fazer, porque ninguém o fez, foi uma análise global que permitisse avaliar o desempenho de Portugal em comparação com outros países. E, nesse segmento específico, as notícias estão longe de ser animadoras; muito antes pelo contrário, revelando fragilidades que suscitam sérias e legítimas preocupações.

Em 2022 já tinha feito esse exercício para uma amostra de 25 países, calculando não o desempenho para a amostra do Top 2%, mas somente o rácio muito mais selectivo associado ao subgrupo de investigadores do Top 0.5% por milhão de habitantes, que se traduziu numa lista cujo primeiro lugar aparecia ocupado pela notável potência científica que é a Suíça e onde Portugal aparecia em último lugar, abaixo da Grécia e do Chipre. Há um ano atrás voltei a fazê-lo, para constatar que infelizmente, o nosso país muito embora tenha crescido ligeiramente não conseguiu ultrapassar nenhum daqueles dois países que obviamente também cresceram https://pachecotorgal.com/2024/09/23/nobel-para-a-ciencia-portuguesa-clarivate-analytics-revela-que-nao-sera-tao-cedo/ 

E quando agora, um ano depois, se repete o mesmo exercício verifica-se que Portugal, apesar de um novo e ligeiramente aumento do número de investigadores, ainda continua desgraçadamente abaixo dos referidos dois países, pois eles também aumentaram o seu número de investigadores altamente citados no Top 0.5%. Uma análise das taxas de crescimento médio entre 2022 e 2025, da Grécia (3%/ano) e de Portugal (1.7%/ano) mostra que a esse ritmo de tartaruga o nosso país nunca conseguirá ultrapassar a Grécia. 

E se, ano após ano, o impacto da ciência portuguesa continuar sistematicamente abaixo do da Grécia e do Chipre e muito longe do da Suíça, qual a probabilidade de uma ciência com tão fraco impacto produzir benefícios reais para o nosso país? Num século em que o crescimento económico depende cada vez mais de valor acrescentado, inovação e investigação, é minimamente credível que uma ciência com menos impacto do que a da Grécia e do Chipre nos permite convergir com o nível de riqueza da Suíça? E até quando vamos ignorar que uma ciência persistentemente pouco relevante internacionalmente está a alimentar a fuga permanente de talento e a condenar o país à estagnação económica?

Neste contexto, importa recordar um artigo publicado há um ano atrás na prestigiada revista The Economist, evidenciava que uma das formas mais eficazes de financiar a ciência, com vista à maximização do seu impacto, consiste muito menos no financiamento de projectos mas mais na atribuição de contratos de longa duração aos investigadores com a duração de pelo menos 7 (sete) anos. Não é, por isso surpreendente que o Conselho Europeu de Investigação (ERC) tenha agora decidido financiar contratos com essa duração. Ironicamente, em Portugal, alguém, cuja decisão dificilmente se pode atribuir a uma avaliação informada ou a uma reflexão estratégica sólida, ou sequer a um módico de inteligência, entendeu que reduzir para metade a duração dos contratos dos investigadores é aquilo que melhor serve os interesses da ciência Portuguesa e o futuro de Portugal !

PS – Em Portugal a U.Aveiro e a U.Minho lideram o grupo das universidades públicas em termos de densidade de investigadores no Top 0.5% do ranking Elsevier-Stanford por docente ETI, o que significa que são as duas universidades que mais tem contribuído para que Portugal não esteja ainda mais longe do desempenho da Grécia e do Chipre https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/09/uaveiro-uminho-e-uporto-no-podio-do-top.html

A queda do pedestal ou o princípio do fim da arrogância médica

https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/02/the-economistartificial-intelligence.html

Há seis anos atrás a The Economist previu que a AI iria retirar os médicos do seu pedestal. Vide post acessível no link supra. À época essa previsão pode ter parecido excessiva, pois na altura ainda não havia nenhum ChatGPT, o modelo que passou a estar disponível ao público apenas dois anos depois. Contudo é precisamente esse modelo de IA generativa que hoje é utilizado diariamente por 40 milhões de pessoas unicamente para questões relacionadas com saúde, facto que levou a empresa proprietária do mesmo a lançar esta semana uma “ferramenta” dedicada somente a questões de saúde https://expresso.pt/newsletters/conversas-ao-ouvido/2026-01-08-40-milhoes-usam-o-chatgpt-todos-os-dias-por-motivos-de-saude.-esta-semana-fui-eu-6304a189

No contexto supra é pertinente recordar que no passado dia 18 de Setembro no post de titulo “O futuro bastante negro dos estudantes que agora ingressam num curso de medicina” divulguei um estudo que demonstrou que a IA consegue acertar em mais de 80% dos diagnósticos clínicos complexos, contra apenas 20% de médicos experientes, divulguei ainda um outro estudo da conhecida universidade Johns Hopkins, que desenvolveu um modelo de IA capaz de prever ataques cardíacos fatais com até 93% de precisão, e também o desempenho de um novo modelo de IA, desenvolvido por um consórcio europeu, que consegue prever o risco do aparecimento de mais de mil doenças com várias décadas de antecedência https://pachecotorgal.com/2025/09/18/o-futuro-bastante-negro-dos-estudantes-que-agora-ingressam-num-curso-de-medicina/ 

Paradoxalmente, enquanto a IA aplicada à medicina evolui a um ritmo alucinante, as faculdades de medicina continuam a formar profissionais como o faziam há várias décadas décadas, preparando-os para competir com máquinas que já os superam de forma clara em diagnóstico, previsão e análise clínica. Se ao menos fosse possível dizer que, pelo menos, os médicos ainda conseguem superar as máquinas tratando os doentes de forma bastante empática. Mas nem aí esses profissionais conseguem um melhor desempenho do que a IA: pois como mostra a ciência, a IA é capaz de responder de forma significativamente mais empática do que os próprios médicos. Veja-se, por exemplo, o estudo publicado na revista científica Journal of General Internal Medicine, que envolveu mais de 1.400 participantes.  https://link.springer.com/article/10.1007/s11606-025-10068-w?

Acresce que a utilização da IA em Portugal é especialmente vantajosa por um motivo particular, a IA irá permitir poupar muitos milhões de euros, ao contrário de um elevado número de médicos Portugueses que possui uma estranha atracção pela fraude, que custa aos contribuintes deste país o valor astronómico de quase 800 milhões de euros por ano (um valor superior ao que Portugal gasta todos os anos a pagar o salário de milhares de investigadores), que é basicamente o mesmo que termos 2600 médicos todos os anos a cometerem fraudes de 300.000 euros cada um!  

PS – O presente post não constitui um ataque gratuito a toda a classe médica, mas uma critica contundente aos inúmeros maus profissionais que a integram, os quais escolheram o curso de Medicina apenas como um meio oportunista de enriquecer rapidamente. Como é óbvio, há muitos médicos que são profissionais extraordinários e também pessoas invulgares, e que eu próprio já louvei em posts anteriores, como por exemplo um de nome Domingos Machado, ou aquele médico que mencionei num post que se tornou um dos mais visualizados https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/01/muito-provavelmente-este-e-o-melhor.html

The New Inquisition in Science: Condemned Without Evidence, Blame Without Cause

In the paper Ranking-Based Sanctions for Retraction-Afflicted Elite Researchers,” published in the journal Accountability in Research, the authors propose a framework aimed at holding prominent researchers accountable for retractions. While methodologically detailed, the approach is fundamentally flawed: it reflects a Dark Ages approach to accountability by assigning blame without establishing culpability, misapplying deterrence logic, and actively undermining the process of scientific self-correction. By treating all retractions as equivalent, the framework blurs the critical distinction between deliberate misconduct and honest error, undermining both fairness and scientific integrity, while fostering perverse incentives that discourage transparency, openness, and the responsible correction of the scientific record.

A parallel structural problem exists in major databases such as Scopus and Web of Science, which apply a single, undifferentiated “retraction” label to all withdrawn publications, regardless of whether the underlying cause is fraud, negligence, or honest error. Given the central role these databases play in hiring, promotion, funding, and collaboration decisions, this practice foreseeably and systematically stigmatizes researchers who act in good faith by implicitly associating them with misconduct. Empirical evidence shows that retractions result in enduring harm to reputation and career mobility, often spilling over to an author’s non-retracted work, with early-career researchers being particularly vulnerable. It is therefore urgent that Scopus and Web of Science adopt at least a minimal retraction typology distinguishing intentional misconduct, negligence, and honest mistake.

Such a reform would preserve accountability where warranted while mitigating unjust, foreseeable, and potentially actionable harm to researchers’ professional standing. Continued reliance on an undifferentiated retraction label risks rendering these databases complicit in the unfair stigmatization of researchers and morally, if not legally, responsible for the avoidable damage inflicted on scientific careers. Science already bears the tragic scars of researchers whose careers were shattered—and in some heartbreaking cases, who took their own lives—after papers were retracted, even when they were later found innocent of direct misconduct. What science must prevent now is another suicide—this time triggered by retractions stemming from honest errors.

Declaration of Competing Interests – I previously argued that retractions in academic publishing should adhere to the principles of justice exemplified in legal systems, with consequences carefully calibrated according to intent, magnitude of harm, and accountability, thereby ensuring that corrections serve the integrity of the scholarly record rather than functioning as arbitrary or punitive measures reminiscent of the Holy Inquisitionhttps://pachecotorgal.com/2025/12/20/a-tiered-approach-to-retractions-preserving-scientific-integrity-without-undue-harm/

Update after 5 days — Statistics show that the top five foreign countries engaging with this post are the United States, Ireland, the Netherlands, the United Kingdom, and Sweden.

O ingénuo prof. catedrático, o arguto prof. associado e o estudo que mostra que as empresas não querem contratar doutorados

https://www.publico.pt/2025/12/27/ciencia/opiniao/queremos-ciencia-excelencia-somente-aplicacao-ciencia-nao-2159309

Recentemente um catedrático da Universidade de Coimbra criticou num artigo no jornal Público, a politica científica deste Governo, por preferir apostar na ciência aplicada em detrimento da ciência fundamental. Vide link supra. Infelizmente logo no inicio do seu artigo, talvez por ingenuidade, aquele deu crédito à ilusão de que as empresas e bancos Portugueses andam viciados em actividades de investigação, na qual alegadamente gastam milhares de milhões de euros, quando na realidade o que acontece, é que esses milhares de milhões foram canalizados para fundos de capital de risco, em troca de benefícios fiscais. 

Aliás para se perceber que “a bota não batia com a perdigota“, bastava atentar no facto de se ter ficado a saber que as mesmas empresas que alegadamente gastavam milhares de milhões em actividades de investigação, recusavam contratar doutorados, nem sequer mesmo que o Estado chegasse ao ponto de lhes conceder um subsidio fiscal no valor de 120% do valor do seu salário, vide estudo, que me foi enviado por um Colega da universidade de Aveiro e que dei a conhecer a um elevado número de colegas, através de um email que reproduzo no final do presente post. 

No respeitante a críticas à política científica deste Governo, esteve porém muito melhor um arguto professor associado do ISCTE, que há poucos dias, escreveu que:  “A ideia de orientar a investigação para as empresas assenta numa visão linear da inovação…Mas há décadas que os estudos de inovação mostram como esta imagem é errada. Mesmo quando há transferências, elas raramente são automáticas: exigem competências internas para compreender, interpretar e combinar conhecimento com activos específicos…Ainda mais importante, o maior contributo da ciência para a economia não está, na maioria dos casos, nos resultados imediatos da investigação, mas nas competências que ela forma e difundehttps://www.publico.pt/2025/12/29/opiniao/opiniao/agencia-quadrado-ja-falta-mudar-ideias-2159424

Mas, pior do que privilegiar a investigação aplicada em detrimento da investigação fundamental, pior do que permitir que milhares de milhões de euros sejam canalizados directamente para fundos de capital de risco e pior do que confundir as fragilidades do tecido económico com um putativo desalinhamento entre ciência e economia, que justificou a fusão entre a FCT e a ANI, é aquilo que há alguns meses se podia ler no semanário Expresso: “a despesa pública em I&D caiu a pique no período da troika e nunca recuperou desde então, estando agora em níveis inferiores aos registados no ínicio dos anos 1990″. Mas se a desculpa é uma alegada falta de dinheiro, que não pode ser, porque na década de 90 não havia mais dinheiro do que agora, então trate o Governo de copiar o que fazem na Suécia e na Alemanha, no que respeita a dar caça aos grandes evasores fiscais, que em Portugal são responsáveis por um buraco de astronómico de mais de 40.000 milhões de euros https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/02/o-que-falta-portugal-para-ser-como.html

PS – Mas, se de facto as empresas Portuguesas não querem contratar doutorados, nem mesmo recebendo subsídios, mais não resta aqueles do que irem trabalhar para empresas em países estrangeiros, que mereçam o seu esforço e o seu talento, ou em alternativa tentarem criar as suas próprias empresas, seguindo o caminho do insigne doutorado da universidade de Aveiro, que fundou uma startup extremamente valiosa e também daqueles cujas startups já recolheram financiamento de vários milhares de milhões de euros  https://pachecotorgal.com/2025/11/12/univ-de-lisboa-uma-noticia-sobre-um-1o-lugar-que-afinal-e-apenas-o-8o-lugar-nacional/


De: F. Pacheco Torgal 
Enviado: 4 de julho de 2025 14:19

Assunto: Estudo mostra que as empresas Portuguesas não querem doutorados nem mesmo que lhes paguem muito para os contratar

Aproveito para reenviar abaixo link de artigo e também texto de email que há pouco recebi de um colega da U.Aveiro. Sobre o SIFIDE lá referido, declaro que critiquei essa aberração mais de uma dezena de vezes. A última vez que o fiz foi no passado mês de Maio https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/05/que-licoes-se-podem-extrair-do-livro.html

PS – Talvez isso ajude a explicar porque há milhares de doutorados desempregados https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/04/sera-que-aumentar-actual-inflaccao-de.html

Anexo link para paper interessante sobre o SIFIDE. Em resumo:  Nem com 120% de bonificação as empresas “pegam” nos PhD holders. Cumprimentos, Daniel

[PDF] Examining the Impact of R&D Tax Credits on Employment Growth Across Economic Sectors

“Felizmente nenhum dos nossos alunos quer ir trabalhar para a função pública”

https://pachecotorgal.com/2025/12/24/os-catedraticos-portugueses-que-possuem-uma-metrica-de-citacoes-superior-a-de-alguns-premios-nobel/

No passado dia 24 de Dezembro, divulguei o caso singular do professor catedrático que arrasou, de alto a baixo, o sistema de educação Português, vide post acessível no link supra. O referido catedrático foi entretanto entrevistado pelo jornal Público e, dessa longa e provocadora entrevista — hoje publicada na edição impressa do jornal — destaco abaixo algumas declarações na esperança de que despertem a curiosidade para a leitura integral da entrevista referida: 

“Felizmente nenhum dos nossos alunos quer ir trabalhar para a função pública”

“Os dois primeiros alunos que acabaram o programa eram um engenheiro electrotécnico…e um estofador da Autoeuropa que tinha o 12.º ano”

“Esta escola tem, literalmente, o padeiro sentado ao lado do médico.”

“Temos universidades e politécnicos que têm taxas de desemprego à saída de 30% ou de 50%”

“É claro que os senhores reitores queriam que nós desaparecêssemos porque isto para eles é um irritante” 

https://www.publico.pt/2025/12/27/sociedade/entrevista/educacao-sistema-sovietico-planeamento-central-experimentado-urss-produzir-pao-nao-funcionou-2159088

É importante salientar — algo que infelizmente o catedrático Pedro Santa Clara não fez — que a proposta educativa em questão apresenta várias vantagens enquanto modelo complementar de educação, mas não constitui uma solução universal ou milagrosa. Porém este modelo não permite formar profissionais cuja atuação exige uma sólida formação científica, como cientistas, engenheiros ou médicos, nem aqueles cujas profissões requerem formação prática intensiva e certificada, como mecânicos, eletricistas, carpinteiros, serralheiros, canalizadores ou técnicos de manutenção. De qualquer forma, a academia não tem a menor razão para se mostrar complacente, e muito menos para subestimar os enormes desafios actuais, pois num post anterior do passado dia 27 de Maio, escrevi:  “hoje mesmo o catedrático jubilado Robert Reich, ter defendido no seu blogue, que muitos dos empregos do futuro não necessitarão de uma formação de ensino superior”. A isso soma-se ainda o facto do último número da revista The Economist revelar que a geração Z demonstra um interesse crescente por profissões técnicas e muito menos por formações académicas. https://www.economist.com/international/2025/12/18/ditch-textbooks-and-learn-how-to-use-a-wrench-to-ai-proof-your-job

PS – A mim, pessoalmente, enquanto primeiro signatário de uma petição contra a endogamia que protagonizei há 10 anos atrás, fico satisfeito pelo facto dele não se ter esquecido de mencionar aquele que é o “calcanhar de Aquiles” da academia Portuguesa (Catedrático Orlando Lourenço dixit).