O catedrático que revela a receita da morte, o catedrático que traz o diabo ao colo e uma forma repugnante de corrupção

Luís Aguiar-Conraria, um conhecido catedrático da Universidade do Minho que já citei dezenas de vezes, revela, no seu mais recente artigo publicado no primeiro caderno do semanário Expresso, um dado profundamente perturbador: um estudo que avaliou o impacto da privatização de 258 hospitais nos Estados Unidos concluiu que essa mudança provocou quase 920 mortes adicionais por ano

Ainda mais inquietantes são os resultados de outro estudo referido por Aguiar-Conraria, realizado em Estocolmo e publicado numa das mais prestigiadas revistas internacionais de Economia. Na capital sueca, o Estado paga a operadores privados para manterem ambulâncias disponíveis para responder também a emergências públicas. Essa coexistência permitiu comparar os resultados dos doentes assistidos por ambulâncias públicas e privadas. A conclusão é tão clara quanto alarmante, ser assistido por uma ambulância privada aumenta a probabilidade de morrer nos três anos seguintes. 

Segundo o estudo, os operadores privados conseguem reduzir os custos através da diminuição da qualidade das equipas das ambulâncias. Pior ainda, o mesmo estudo concluiu que o valor económico das mortes adicionais ultrapassa as poupanças proporcionadas pelo serviço privado. Há, contudo, uma questão que o artigo de Aguiar-Conraria não esclarece e que seria interessante conhecer, depois de estes resultados terem sido tornados públicos, estarão os habitantes de Estocolmo dispostos a ser assistidos por uma ambulância privada, sabendo que essa escolha poderá aumentar o risco de uma morte prematura?

Não menos inquietante é o artigo publicado no caderno de Economia do mesmo semanário pelo professor catedrático Ricardo Reis, com o sugestivo título “O acerto de contas chegou”, embora, perante a gravidade do cenário que nele se descreve, talvez fosse mais rigoroso e certamente mais honesto chamar-lhe O diabo já chegou. Ricardo Reis analisa a subida generalizada das taxas de juro em todo o mundo, lembrando que, em países como o Reino Unido e o Japão, estas atingiram recentemente valores que não se verificavam há mais de três décadas. O artigo termina com um aviso que deveria inquietar qualquer contribuinte: “Pagar os juros da dívida vai começar a pesar, e muito… Os governos vão ter de fazer escolhas difíceis sobre onde cortar.”

Pessoalmente, acho que qualquer Governo deveria começar por apresentar a factura a quem nunca a pagou, os multimilionários, especialistas em fugir aos impostos (Piketty dixit). E se continuarem a encontrar novas formas de não pagar, talvez não reste outra solução senão seguir a proposta de uma catedrática da Universidade de Utrecht, que defende a aplicação de uma taxa de 100% sobre toda a riqueza que ultrapasse 10 milhões de euros. Porque um Governo que prefere cortar hospitais, escolas, pensões e apoios sociais a limitar patrimónios cuja dimensão se tornou económica, social e moralmente obscena não está a submeter-se a uma fatalidade financeira, mas a praticar uma forma particularmente repugnante de corrupção moral, já que decide proteger deliberadamente os privilégios de uma minoria cínica, gananciosa e parasitária e obriga quem vive unicamente do seu trabalho a pagar integralmente essa factura.