O sistema científico nacional está viciado em publicações e isso está a prejudicar as universidades nacionais e a ciência mundial

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/11/o-sistema-cientifico-nacional-esta.html

Como divulguei no post acessível no link supra, em termos de publicações indexadas na base Scopus por milhão de habitantes, em 2009 Portugal ultrapassou a Itália, em 2010 ultrapassou a França, e em 2012 ultrapassou a Alemanha. Logo o país cuja ciência ganhou dezenas de prémios Nobel enquanto Portugal só ganhou um único Nobel há mais de 70 anos. E porém não ficou por aí, em 2021 a vantagem de Portugal sobre a Alemanha subiu para 34% e entretanto essa superioridade alcançou em 2024 uns inacreditáveis 44%. 

Porém e em sentido inverso o número total de publicações indexadas produzidas por investigadores Alemães tem vindo a descer todos os anos desde 2021. E a razão para isso não será certamente falta de competência nem muito menos preguiça. Mais provavelmente estará ligada à denúncia feita por muitos cientistas que o excesso de publicações  a nível mundial está a prejudicar a ciência, vide por exemplo Hanson et al. (2024) ou também o artigo de Horta e Jung (2024)  que constatou não haver investigadores séniores em número suficiente para conseguirem rever tantas publicações, o que leva a que na maior parte das vezes os Editores tenham de convidar jovens investigadores inexperientes, com uma produção cientifica incipiente, que nem sequer chega a meia dúzia de publicações, para fazerem essas revisões. Aliás, se recuarmos ainda mais no tempo, em 2021, Chu & Evans, analisaram 90 milhões de publicações tendo concluído que o referido excesso publicativo é francamente prejudicial à ciência. E nesse mesmo ano um investigador brilhante, Vladen Koltun, titular de um Scopus h-index=87, defendeu até que os investigadores que publicassem em excesso fossem penalizados por isso.

E a supracitada inflação de publicações indexadas ajuda a explicar a queda, ano após ano, no ranking Shanghai por áreas científicas, de todas as universidades Portuguesas, porque só por manifesta ingenuidade científica se poderia esperar que um aumento anormal da quantidade das publicações não levaria inevitavelmente a uma diminuição da sua qualidade (leia-se impacto) e é também por isso que os Alemães optaram por reduzir o número total das suas publicações, apostando antes em conseguir aumentar a “qualidade” das mesmas, ao mesmo tempo que também assim mostram ao mundo a sua vontade de deixar de contribuir para a muito danosa inflação mundial de publicações.  

É claro que como os investigadores nacionais adaptam o seu desempenho aos incentivos institucionais, enquanto não houver mudanças na avaliação de desempenho, que reduzam o anormalmente elevado valor das publicações, e passem a valorizar actividades de revisão e também o impacto científico (o verdadeiro calcanhar de Aquiles da ciência nacional), irão continuar a bater tristes recordes de publicações, mesmo que isso prejudique a competitividade internacional das universidades Portuguesas e a própria ciência mundial. 

Ainda no que respeita ao impacto científico, é pouco rigoroso, pouco científico e até perverso, que nos regulamentos nacionais de avaliação de desempenho, o mesmo seja estimado, de forma indirecta, atrás dos quartis das revistas (leia-se através do seu factor de impacto), pois trata-se de uma opção que foi fortemente desaconselhada por muitos conhecidos investigadores, que denunciaram as manipulações sistemáticas de que o mesmo é alvo, como por exemplo o fizeram os catedráticos Larivière e Sugimoto (2019) ou o supracitado Vladen Koltun, ao invés de ser calculado de forma directa, seja através de citações ou através do h-index, aliás se de há vários anos a esta parte, se tornou prática corrente publicar em Diário da República, editais de concursos públicos para lugares de professores catedráticos, em várias universidades incluindo na UMinho, exigindo valores mínimos de h-index  isso significa que os mesmos já abriram o precedente legal para que a sua utilização se possa também estender aos regulamentos de avaliação de desempenho. 

PS – Curiosamente, há um tipo particular de publicações académicas em relação ao qual Portugal não tem sido capaz de evidenciar um desempenho acima da média: os livros. A pequena Universidade de Oxford consegue produzir, todos os anos, mais livros indexados do que todas as universidades e politécnicos portugueses juntos, públicos e privados.

The Rise of AI-Driven Manipulation and the Urgent Need to Recalibrate Ethics and Integrity as Core Academic Values

https://pachecotorgal.com/2024/01/27/ai-has-radically-changed-the-core-university-business-shifting-focus-from-teaching-and-publications-to-assessment-curation-and-mentoring/

Nearly two years ago, I commented on an article published in The Economist (linked above) that explored the potential for artificial intelligence to interfere with electoral processes through fabricated videos of politicians. I reflected on how this emerging reality could profoundly transform the core mission of academia, shifting its emphasis from traditional priorities such as teaching and scholarly publications toward activities centered on assessment, curation, and mentoring. Just yesterday, Politico reported that AI-driven deepfakes have now made a tangible impact on European elections. In Ireland, a manipulated video falsely depicted presidential candidate Catherine Connolly withdrawing from the race, while in the Netherlands, far-right politicians employed AI-generated images to tarnish and discredit their political opponents. https://www.politico.eu/article/elections-europe-ai-deepfakes-social-media/

Notably, two years ago, AI-generated Sora videos were purely hypothetical. What once existed only as a theoretical danger now moves openly in the world. The launch of Sora for ChatGPT Plus and Pro on December 9, 2024 — followed by the public release of its successor, Sora 2, on September 30, 2025 — did more than introduce a new AI tool; it unleashed a technology capable of reshaping reality itself. That shift is not incremental — it is tectonic. The availability of Sora 2 as a platform for generating deepfakes turns disinformation from a slow-burning threat into an immediate, scalable weapon. What were once abstruse academic warnings have metastasized into an urgent crisis: manipulated media now routinely corrodes public trust, warps political debate, and weaponizes appearance itself. These developments have remade the battlefield of truth, dramatically accelerating the risks of disinformation and political interference and forcing us to confront consequences once dismissed as hypothetical.

For academia this is an existential moment — an invitation to lead. Institutions must stop treating ethics as an afterthought and start treating it as infrastructure. Curricula, research priorities, and reward systems must be recalibrated toward detection, curation, mentoring, and public literacy. In the emerging era of synthetic media, ethics and integrity are no longer peripheral virtues — they are the currency by which scholars buy credibility, influence, and access to funding. Those who can reliably identify, contextualize, and counteract AI-driven deception will become the new gatekeepers of moral authority: custodians of a scholarly practice where intellectual rigor is meaningless unless paired with ethical accountability.

O Decreto-Lei socialista socializante e medíocre que viola a Constituição Portuguesa de forma grosseira

Todos concursos na função pública estão subordinados ao princípio do mérito, consagrado na Constituição da República Portuguesa (CRP), porém, a aprovação, pelo Governo socialista de António Costa, do Decreto-Lei n.º 112/2021, de 14 de dezembro, veio isentar todas as instituições de ensino superior públicas dessa exigência fundamental. 

Por força desse decreto-lei, milhares de concursos têm vindo a ser abertos no ensino superior, aos quais apenas podem concorrer candidatos das próprias instituições que os promovem e é especialmente grave que o princípio do mérito esteja, desde então, a ser alvo de uma exceção precisamente nas instituições onde as exigências de mérito deveriam ser maiores, exactamente como sucede nas universidades do países do primeiro mundo. 

Recorde-se que, antes da aprovação desse decreto-lei, os concursos para o ensino superior tinham natureza internacional, admitindo candidatos de outros países. Desde essa altura, porém, deixaram de admitir sequer candidatos nacionais, aceitando apenas “candidatos da casa”. Esta situação aberrante — um verdadeiro hino à mediocridade — e manifestamente ilegal porque inconstitucional, é particularmente grave num país cujas universidades apresentam níveis de endogamia superiores a 70%, enquanto as universidades mais competitivas do mundo registam percentagens inferiores a 10%.

Depois não pode constituir admiração que as universidades Portuguesas todos os anos se vão afundando no mais prestigiado ranking mundial, o ranking Shanghai, o único que contabiliza prémios Nobel, sendo que algumas das melhores universidades Portuguesas, aparecem nesse ranking abaixo de universidades de países do terceiro mundo. 

Recordo que vários catedráticos tiveram a integridade de criticar esses concursos, que apelidaram de concursos aconchegados e que um ex-Reitor foi mais longe e disse até que esses concursos reforçam o compadrio nas universidades Portuguesas. 

PS – Importa também questionar o que sucederá se um estudante de uma universidade solicitar informação sobre quais os professores recrutados através de concursos de âmbito internacional e quais aqueles que foram selecionados em concursos aconchegados, com o intuito de escolher um orientador pertencente ao primeiro grupo. Poderá a universidade recusar-lhe o acesso a essa informação?

Mais um concurso que anulei em tribunal, desta vez na universidade do Porto

À semelhança de outros concursos académicos dos quais consegui obter anulação judicial, fui ontem informado que uma acção de impugnação que intentei relativamente a um concurso para uma vaga de Professor Associado no departamento de engenharia civil da Universidade do Porto conseguiu levar à anulação do mesmo.  A bizarra decisão do júri desse concurso, cujos juízes também não conseguiram compreender, é evidente na argumentação que aduzi em sede de audiência prévia e da qual abaixo reproduzo um breve extrato.

Reproduzo também no final do post o nome dos jurados, destacando com louvor dois deles — a catedrática Maria de Lurdes da Costa Lopes e o investigador-coordenador do LNEC, Arlindo Freitas Gonçalves — pela dignidade e integridade que demonstraram ao reconhecer o óbvio: que a produção e o impacto científico do currículo do candidato que venceu o concurso (sabe-se agora que em violação da lei) eram muitíssimo inferiores aos meus.

E, por caridade cristã, abstenho-me de nomear os jurados cuja produção e impacto científicos eram, igualmente inferiores aos meus — embora o tenha feito, em sede de audiência prévia, quando escrevi: “…algo incompreensível, pois o trabalho científico do referido jurado não conseguiu receber ao longo de 34 anos…tantas citações quantas recebeu o trabalho do ora requerente em apenas 7 anos”

“…Desde logo não se percebem (de todo) as pontuações do jurado nº 2 (Jorge de Brito) por exceder 100% nem tão pouco as dos jurados 1 (Fernando Branco), 4 (Fernando Henriques) e 6 (Vasco Freitas) e por não terem atribuído neste critério 100% a nenhum dos 9 candidatos. Quase parecendo que a pontuação atribuída o foi em termos absolutos e não relativos. Contudo somente atribuindo a pontuação de 100 ao candidato melhor classificado em cada critério (como o fizeram os jurados 3, 5 e 7 (Arlindo Gonçalves, Álvaro Cunha e Maria de Lurdes Costa)) e graduando a produção dos restantes candidatos se podem relativizar as pontuações entre os diferentes candidatos. Torna-se assim necessário perceber a pontuação relativa entre o ora requerente e o candidato que o projecto de Lista Unitária de Ordenação Final de candidatos coloca na 1ª posição, a qual se apresenta na tabela 2.

Tabela 2- Vantagem percentual relativa entre a pontuação do ora requerente e do candidato que o projecto de Lista Unitária de Ordenação Final de candidatos coloca na 1ª posição

Jurado 1-ISTJurado 2-ISTJurado 3-LNECJurado 4-UNLJurado 5-U.PortoJurado 6-U.PortoJurado 7-U.Porto
0%160%%238%142%154%133%286%

Produção de artigos em revista SCI – vantagem de aprox. 2.350% entre a produção do ora requerente e do candidato que o projecto de Lista Unitária de Ordenação Final de candidatos coloca na 1ª posição.

Rácio de artigos em revista SCI/ano (contados a partir do ano imediatamente a seguir à conclusão do Doutoramento) – vantagem de aprox. 3.400% entre a produção do ora requerente e do candidato que o projecto de Lista Unitária de Ordenação Final de candidatos coloca na 1ª posição. 

Factor de impacto acumulado – vantagem de aprox. 13.000% entre a produção do ora requerente e do candidato que o projecto de Lista Unitária de Ordenação Final de candidatos coloca na 1ª posição. 

Citações de artigos em revista ISI – vantagem de aprox. 3.300% entre a produção do ora requerente e do candidata que o projecto de Lista Unitária de Ordenação Final de candidatos coloca na 1ª posição.

O candidato que o projecto de Lista Unitária de Ordenação Final de candidatos coloca na 1ª posição não cumpria sequer (à data da candidatura) o primeiro critério mínimo de qualidade científica para Orientar teses de Doutoramento na área da engenharia civil financiáveis pela FCT.

Composição do Júri:

Catedrático Fernando António Baptista Branco…………Universidade de Lisboa

Catedrático Jorge Manuel Caliço Lopes de Brito……….Universidade de Lisboa

Catedrático Fernando Manuel Anjos Henriques………..Universidade Nova de Lisboa

Investigador-Coordenador Arlindo Freitas Gonçalves..LNEC

Catedrático Vasco Manuel Peixoto Araújo de Freitas…Universidade do Porto

Catedrático Álvaro Matos Ferreira da Cunha……………Universidade do Porto

Catedrática Maria de Lurdes da Costa Lopes…………..Universidade do Porto

Prof. Zucman’s latest book – “Billionaires Don’t Pay Income Tax and We’re Going to Stop It”

https://www.economist.com/finance-and-economics/2025/10/12/why-the-ultra-rich-are-giving-up-on-luxury-assets

A recent article in The Economist (linked above) highlights a notable shift in the consumption patterns of the ultra-rich. Traditional luxury assets—such as sports cars, private jets, boats, and sprawling mansions—are losing their appeal as symbols of status because their ubiquity and replicability have diluted their exclusivity. In response, the global elite are increasingly allocating wealth toward highly curated, experiential offerings that are inherently limited and often non-transferable. These include access to elite events, bespoke travel and hospitality, and other immersive experiences that combine social prestige with scarcity. Recognizing the potential economic implications of this shift, I engaged GPT-5 to conduct a foresight analysis identifying the countries most likely to benefit from evolving ultra-wealthy consumption patterns. The excerpt below presents the opening segment of GPT’s analysis, covering the first three countries (Italy, France and Portugal) in the Top 10 ranking, as elaborated in the full response.

Equally noteworthy in the realm of the ultra-rich is the importance of acknowledging other forms of immersive experiences that carry substantial social prestige—among them, the act of paying taxes. In this context, it is particularly commendable to highlight the work of economist Gabriel Zucman, whose most recent book, Billionaires Don’t Pay Income Tax—and We’re Going to Stop It,  mercilessly exposes the parasitic behavior of the ultra-rich, who rig the system to dodge their fair share while the rest of society bears the burden. He lays bare the staggering scale of tax avoidance, dissects the loopholes they exploit, and proposes a simple but radical fix—a modest annual wealth tax to claw back stolen fairness. More than a policy prescription, Zucman’s work is a searing indictment of economic privilege, framing tax compliance as a non-negotiable civic duty and a measure of basic human decency in a society hollowed out by the greed of its wealthiest members, whose effective tax rate hovers around 0.3% of their wealth. https://www.amazon.fr/milliardaires-paient-dimp%C3%B4t-revenu-allons-ebook/dp/B0FT3526SD

GPT-5 foresight analysis on Italy, France, and Portugal, the top three countries most likely to benefit from recent shifts in the consumption patterns of the ultra-rich:

Italy — The Rebirth of Sensual Culture

Italy stands at the epicenter of this experiential turn. Its fusion of high culture, gastronomy, aesthetic refinement, and emotional heritage offers what no synthetic luxury brand can replicate: continuity of meaning. UHNW individuals are increasingly channeling wealth into private villas, vineyard estates, and immersive culinary sanctuaries, where the allure lies in authorship—crafting and living one’s own Italian narrative. Regions such as Tuscany, the Amalfi Coast, and Lake Como exemplify this evolution: the grandeur of marble palazzi gives way to the intimacy of experiential estates that promise restoration, slowness, and discretion. Parallel markets are flourishing in art-restoration tourism, bespoke culinary academies, and heritage craftsmanship residencies, signaling a shift from consumption to cultural stewardship. Italy thus transforms luxury into a lived continuity between art, land, and identity.

France — Luxury as a Cultural Performance

France retains its position as the global benchmark for luxury as performance—an aesthetic, ritualized experience rather than a product. Nowhere else fuses Michelin gastronomy, couture ateliers, and curated art events (such as Paris+ par Art Basel) into a seamless continuum of taste and distinction. The Paris–Provence–Bordeaux axis represents a triad of experiential sophistication: Paris as the stage of symbolic capital, Provence as the sanctuary of sensorial retreat, and Bordeaux as the realm of oenological mastery. Meanwhile, the French Alps (Courchevel, Chamonix, Megève) are rebranding from ostentation to stealth wealth: alpine privacy, unbranded opulence, and the social discretion now prized by the global elite. France’s fastest-growing segment is not retail but invitation-only cultural immersion—events, ateliers, and residencies that render luxury invisible yet inimitable.

Portugal — The Discreet Vanguard of Sustainable Luxury

Portugal emerges as a quiet powerhouse in this experiential economy, offering a blend of climate stability, safety, affordability, and authenticity. For the ultra-wealthy seeking post-bling serenity, Portugal provides what global metropolises cannot: intimacy without isolation. The Lisbon–Comporta–Alentejo corridor is becoming a laboratory for experiential minimalism—a style that privileges substance over spectacle. Foreign capital increasingly flows into sustainable estates, creative residencies, and wellness retreats, where the emphasis is on regeneration, not display. The country’s discreet identity—cultured yet unpretentious—positions it as the ideal destination for the new aristocracy of restraint. Its emerging niche is clear: “quiet luxury” fused with environmental consciousness, a lifestyle defined not by accumulation but by alignment with place and purpose.

A comprovação de um novo recorde mundial

https://pachecotorgal.com/2025/08/07/actualizacao-de-recordes-mundiais/

Relativamente aos vários recordes mundiais, listados no post acessível no link supra, posso agora acrescentar mais um, o de investigador mais citado, na área dos materiais activados alcalinamente e ou geopoliméricos, comprovado atráves de uma pesquisa na Scopus, a maior base de literatura cientifica indexada a nível mundial, relativamente ao rácio K-index/ano, que nos últimos 5 anos cresceu de forma muito acentuada mais de 150%.   

PS –  O K-index tem a vantagem de não ser influenciado por publicações que receberam poucas citações, o que significa, que como afirmou o catedrático Carlos Fiolhais em 2018, consegue medir “de modo mais perfeito o impacto na comunidade científica”. 

O desespero e as inverdades vergonhosas do Reitor da Universidade de Coimbra

Na primeira semana do passado mês de Agosto, o Reitor Amílcar Falcão, da Universidade de Coimbra, foi autor de um pouco inspirado artigo no jornal Público, onde tentou sem sucesso defender o indefensável, as virtudes da endogamia académica. Na altura comentei esse artigo no post de titulo “Nas asas da hipocrisia: O pouco magnífico Falcão no ninho quente da endogamia” https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/08/nas-asas-da-hipocrisia-o-pouco.html

Só por desespero se pode compreender que o mesmo Reitor Falcão venha hoje novamente, com os mesmos requentados argumentos, queixar-se da legislação do Governo, a qual recorde-se, pretende combater o grave problema da endogamia académica, embora de forma muito suave, inibindo durante apenas três anos, as unidades orgânicas com as mais elevadas percentagens de endogamia (acima de 60%) de contratarem os seus doutorados. 

Afirma o Reitor Falcão que a solução mágica passa pela formulação de editais magníficos escritos por anjos, que jura ele impedirão toda e qualquer manipulação concursal, fazendo assim por esquecer, a grave denúncia feita por um conhecido catedrático e também aquilo que uma conhecida investigadora-coordenadora, doutorada pela universidade de Oxford, denunciou no Expresso, que na maioria dos concursos académicos em Portugal vigora o princípio, “hoje votas no candidato que me interessa a mim e amanhã eu voto no candidato que te interessa a ti”.

A parte mais lamentável do artigo do Reitor da universidade de Coimbra, é quando aquele afirma sem qualquer prova, que a legislação já aprovada em Conselho de Ministros e que agora irá ser debatida na Assembleia da República, irá prejudicar todas as universidades, excepto aquelas localizadas em Lisboa. Trata-se de uma inverdade absolutamente descarada, que sem dúvida envergonha todos os catedráticos da universidade de Coimbra. Excepto, claro, aqueles a quem a endogamia académica tem dado muito jeito. 

PS – Em 2017 concorri a uma vaga de professor catedrático na universidade Sueca de Uppsala. Naquela famosa universidade (que integra o Top 100 do ranking Shanghai) a selecção dos candidatos que passam à fase final é feita por catedráticos de universidades de outros países, vide relatório de 22 páginas acessível no link https://www.docdroid.net/ONpHyGk/review-by-aalto-university-expert-pdf E a única razão porque as universidades Portuguesas não copiam essa prática é porque isso levaria a que candidatos “da casa”, com fortes cunhas (é o próprio Reitor Falcão, no seu artigo, que admite que elas existem), não conseguissem chegar à fase final. 

O paradoxo (e os danosos malefícios) da invisibilidade e da inexistência científica

A pergunta “Se uma árvore cai numa floresta onde não há ninguém para ouvir, ela faz barulho?” costuma ter como resposta clássica que o impacto da sua queda gera vibrações sonoras, que, caso houvesse alguém presente com a necessária capacidade auditiva, seriam percebidas como som. Contudo o barulho só existe na presença de um observador; na ausência deste, existem apenas ondas sonoras, desprovidas de percepção consciente.

De forma análoga, um cientista que faz um estudo que é ignorado pela comunidade científica assemelha-se a uma árvore que cai no meio da floresta. Do ponto de vista factual, o estudo existe: a metodologia foi aplicada e os resultados foram registados — tal como a árvore também produziu ondas sonoras. Porém no plano da percepção, o estudo comporta-se como se não tivesse ocorrido: ninguém demonstrou qualquer interesse por ele. O seu impacto foi por isso nulo. E neste contexto é importante recordar que os cientistas que não causam impacto não são nesse contexto apenas invisíveis, são desprovidos de existência, pelo menos a fazer fé nas declarações do conhecido cientista Carlo Rovelli https://pachecotorgal.com/2022/06/08/interactions-as-a-paramount-existential-principle-and-the-scientists-who-do-not-exist/

O problema de haver cientistas invisíveis ou inexistentes é em primeiro lugar um problema de desperdício de recursos, pois os recursos consumidos por aqueles, sem qualquer retorno digno desse nome, são desviados de outros cientistas que os poderiam valorizar. Mas muito mais grave do que isso, a ciência já demonstrou, que os referidos cientistas (invisíveis e inexistentes) prejudicam de forma irreversível a carreira de jovens cientistas  https://pachecotorgal.com/2024/08/16/o-melhor-conselho-que-se-pode-dar-a-um-jovem-investigador-fuja-como-o-diabo-da-cruz-dos-catedraticos-de-obra-irrelevante/

Scientific Publishing Without Gatekeeping: Radical Reforms in Academic Publishing

In 2023, eLife introduced a “publish, then review” model, fundamentally transforming its editorial and peer review process. This innovative system replaces the traditional gatekeeping approach, in which manuscripts were either accepted or rejected prior to publication. Under the new model, submissions that pass an initial editorial triage are published directly as preprints and subsequently subjected to open, public peer review. 

A recent study conducted by three German researchers examined the implications of this reform for eLife’s editorial outcomes. Their analysis revealed only minimal differences between manuscripts reviewed under the traditional system and those processed under the new “publish, then review” model. Nonetheless, one of their recommendations was to enhance the robustness of the review process by increasing the number of reviewers per manuscript—from the current average of 2.7 to approximately three or four. https://link.springer.com/article/10.1007/s11192-025-05422-y#Sec15

However, this proposal raises important concerns. The global peer review system is under significant strain, driven by structural challenges inherent to academia itself. Chief among these are widespread reviewer fatigue—caused by the growing volume of manuscript submissions—and the persistent undervaluation of peer review as a meaningful scholarly contribution. (Fox et al., 2017; Ellwanger et al., 2020; Severin & Chataway, 2021; Horta & Jung, 2024; Beecher & Wang, 2025). Expanding the number of required reviewers per paper, without addressing these underlying structural problems, could exacerbate the existing shortage.

One potential remedy, as proposed in an article published by Times Higher Education, is to introduce a more radical and accountability-based approach: journals could adopt a policy of automatically rejecting submissions from authors who consistently publish substantially more papers than the number of peer reviews they contribute. Such a measure would help realign incentives, fostering a more equitable distribution of the reviewing burden while reinforcing peer review as a collective academic responsibility. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/a-radical-solution-to-solve-crisis-in.html

Declaration of Competing Interests — My reviewing activity averages about 90 papers per year, a volume confirmed by Web of Science reviewer records.

Um concurso na U.Aveiro envolvendo uma relação de “grande intimidade” entre um jurado e as duas únicas candidatas admitidas

Um investigador sénior, titular de um currículo cientifico muito robusto, que actualmente trabalha na Universidade de Coimbra, trouxe ao meu conhecimento que concorreu a um lugar de investigador na universidade de Aveiro, tendo sido excluído do mesmo, muito embora tivesse havido um membro do júri desse concurso, de nome José Luís dos Santos, que merece profundo elogio, por muito corajosamente ter votado contra essa exclusão. 

A parte mais interessante é que as duas únicas candidatas admitidas a esse concurso não só já trabalham naquela instituição (um tributo à endogamia), como partilham com um dos jurados uma larga maioria de publicações (das 33 publicações produzidas por essas candidatas 29 levam o nome desse jurado). Facto esse que de acordo com um Acórdão do TCA 2305/15.7BELSB revela uma relação profissional de grande intimidade, que fragiliza de forma irreversível a necessária imagem de independência do júri do concurso. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2023/09/qual-etica-de-um-catedratico-que-aceita.html

A contestação à decisão de exclusão desse concurso e bem assim a análise das publicações das duas únicas candidatas admitidas ao mesmo, foi feita de modo particularmente exaustivo no documento de 42 páginas, que foi enviado ao Reitor da Universidade de Aveiro e que está acessível no link https://drive.google.com/file/d/1KT6SQ6Ut3zNBEZ7vfTPhH07YWrNawGRG/view?usp=sharing

PS – Sobre a endogamia académica que favorece os candidatos caseiros e que prejudica candidatos excelentes, só pelo facto de não pertencerem à casa ou de não terem feito favores à casta (deputado Rui Tavares dixit) vale a pena revisitar o post de 11 de Agosto https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/08/nas-asas-da-hipocrisia-o-pouco.html