O país em que professores universitários tem de pagar para que os tribunais ensinem a lei a quem a deveria saber

No inicio do presente mês de Julho divulguei uma sentença de um tribunal, que em boa hora absolveu um professor universitário da prática de um alegado crime. Essa sentença merece hoje um artigo na revista Sábado, com o esclarecedor título “Tribunal decide que professor da FDUL tem direito à liberdade de expressão“.

O alegado crime, foi o facto do referido (e corajoso) professor ter dado uma entrevista à revista Sábado em 2020 e antes disso em 2019 ter enviado emails contendo “reparos sobre como eram nomeados professores assistentes na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa-sobretudo os filhos dos docentes da casa”.

No artigo de hoje da referida revista pode ler-se que “A decisão pode ser importante como precedente no meio académico português, onde a abertura para criticas a problemas institucionais é tipicamente“. Não subscrevo porém esta conclusão que reputo de simplista, porque o meio académico Português não é homogéneo.

Há de facto certas universidades com a tal “pouca abertura“, como a supracitada e outras onde até se fala da palavra medo, como aquela apontada por este catedrático, mas há outras universidades onde esse medo inexiste e outras ainda onde há catedráticos que até chegam ao ponto de defender a necessidade de caos. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/academia-portuguesa-necessita-de.html

Em boa verdade as elevadas percentagens de descendentes de catedráticos contratados na mesma Faculdade que os seus progenitores, é um fenómeno muito localizado nalgumas poucas áreas, pois na minha área científica e noutras não se verifica de todo.

PS – Infelizmente não são só os professores universitários que tem de suportar as custas com acções judiciais, também há investigadores que o fazem.

Vencedor de prémio Nobel aconselha arrogância aos jovens investigadores

No post anterior divulguei os conselhos de um catedrático ilustre a jovens investigadores ambiciosos e nessa sequência entendo agora também importante divulgar o recente conselho de um investigador Francês vencedor do Prémio Nobel da Física, que quando esteve na Universidade do Minho revelou durante uma longa entrevista (muito longa) que deu a um jornalista do jornal Público que, “Em investigação de ponta é preciso ser-se arrogante o suficiente...” https://www.publico.pt/2024/07/14/ciencia/entrevista/inquietacao-arrogancia-claro-nobel-preso-quantica-alain-aspect-2094271

Ou talvez a palavra arrogância não seja a mais indicada para descrever o que ele pretendia dizer, talvez se estivesse a referir à arrogância da rebeldia, uma qualidade que consegue ser melhor descrita pelas palavras audácia indomável, e que já tinha sido igualmente aconselhada por um conhecido físico Italiano, em 2019, também durante uma entrevista ao mesmo jornal Público.  https://www.publico.pt/2019/11/23/ciencia/entrevista/carlo-rovelli-compreender-curvatura-espaco-tempo-quase-trip-psicadelica-1894617

Pessoalmente, prefiro de longe, antes o aguerrido conselho de um corajoso matemático Francês, que na hora da despedida do cargo de Presidente do European Research Council, que exerceu ao longo de seis anos, disse que quando aquilo que estiver em jogo forem cortes do financiamento científico, os investigadores não devem ter medo de entrar em guerra com o poder político. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/12/there-are-times-when-scientists-must.html

PS – Se os cientistas estão destinados a ocupar o topo da “pirâmide alimentar” na civilização do Tipo 1 que estás prestes a emergir, será que poderíamos culpá-los por exibirem um indisfarçável sentimento de orgulho mesmo que possa pecar por quase roçar a arrogância ? 

Nobel Prize Winner Advises Young Scientists to Adopt Confident Arrogance

In my previous post, I shared the advice of an esteemed professor to ambitious young researchers. Continuing this theme, I believe it is also important to share the insights of a French Nobel Laureate in Physics. During a lengthy interview with a journalist from the Público newspaper at the University of Minho, he revealed, In cutting-edge research, you have to be arrogant enough…’. https://www.publico.pt/2024/07/14/ciencia/entrevista/inquietacao-arrogancia-claro-nobel-preso-quantica-alain-aspect-2094271

Perhaps ‘arrogance’ isn’t the most fitting term for what he intended to convey. He might have been referring to the ‘arrogance of rebellion‘ mentioned by a renowned Italian physicist in a 2019 interview with the same newspaper, Público https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/10/study-on-academic-inbreeding-involving.html

Personally, I am far more inspired by the resolute advice of a fearless French mathematician. At the end of his six-year tenure as President of the European Research Council, he emphatically declared that when scientific funding cuts are at stake, researchers must not hesitate to confront political power head-on. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/12/there-are-times-when-scientists-must.html

PS – If scientists are destined to occupy the highest echelon of the societal hierarchy in the forthcoming Type One civilization, how could anyone fault them for exhibiting a sense of pride, even if it borders on arrogance? 

Três perguntas muito pertinentes sobre o desperdício do dinheiro dos contribuintes em salários de 5000 euros

Sobre o artigo acessível no link supra, que hoje integra o jornal Público e que dá conta que uma instituição de ensino superior, decidiu abrir concursos, para posições com renumeração mensal de 5000 euros, a que só podem concorrer Vice-Presidentes dessa instituição, faz todo o sentido questionar:

1 – Faz algum sentido abrir concursos aos quais só pode concorrer um único candidato ?

2 – Faz algum sentido que os contribuintes de um país, que vive de esmolas dos países do Norte da Europa, tenham de sustentar salários mensais de 5000 euros, a professores que em muitos casos possuem currículos científicos inferiores ao de recém doutorados ?

3 – O que é que Portugal está à espera para implementar no ensino superior, um regime de qualificação científica mínima similar ao que há muito existe na Itália? 

Declaração de interesses – Declaro que no contexto supra é muito pertinente revisitar o post de título “Quando estar desempregado é afinal uma inequívoca medalha de honra” https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/03/quando-estar-desempregado-e-uma-medalha.html

PS – No contexto supra também vale a pena revisitar o post anterior, sobre a comissão de avaliação do ensino superior presidida pelo Ex-Presidente da A3ES.

Will the Million-Euro Science Funded by the ERC Be Able to Escape the EU Paradox?

Building on a previous post regarding a study that demonstrated European startups applying the scientific method are more profitable, with top performers gaining nearly half a million euros in additional revenue, it is pertinent to examine a recent paper published in the journal Research Policy titled “ERC Science and Invention: Does ERC Break Free from the EU Paradox?“.

The study shows that ERC-funded research has a higher impact on inventions and is more likely to originate from universities compared to other European research. However, US startups benefit more from this research due to a more dynamic startup ecosystem, while the EU continues to face challenges in commercializing its scientific advancements, known as the European Paradox. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0048733324000878#sec5

There is another way to increase European wealth where science could play a crucial role beyond the creation of startups. This involves leveraging scientific methods to hunt down large tax evaders. As I wrote in 2019 in an email that irritated German MEP Hans-Olaf Henkel, the fact is: “…He forgets that if Europe was able to cut tax evasion by half that would mean an annual revenue of around 500 billion which is more than the annual total net income of 15 Google champions…”

PS – In light of the aforementioned context, it is also worth exploring the post titled “The Economist “The World Ahead 2024″__What constitutes the most efficient method for financing scientific endeavors?

Portugal supera a Alemanha na produção científica na área da Inteligência Artificial

No post anterior do inicio do mês de Maio, tinha divulgado uma análise na plataforma Scopus, sobre a produção científica indexada, na área da inteligência artificial e agora o presente post pretende divulgar como é que a produção científica na referida área evoluiu nos últimos dois meses.

Para esse efeito voltei novamente a pesquisar as publicações científicas que foram produzidas desde o ano 2023, contendo os termos GPT OR AI OR LLM nos campos título, resumo e palavras chave, e depois selecionando somente as publicações que contém as palavras-chave “Artificial Inteligence” OR “Machine Learning” OR “Deep Learning”, obtendo-se agora o valor total de 38762 publicações, o que significa que nesta área particular, nos últimos dois meses, houve a nível mundial um aumento de 6.062 novas publicações

No final do tal post anterior do inicio de Maio, apresentou-se uma lista dos países mais produtivos com mais de 300 publicações desde 2023, onde Portugal aparecia na 29ª posição. Como porém não é muito rigoroso comparar países com diferentes tamanhos, a nova lista actualizada, que abaixo se apresenta ordena os países pelo rácio publicações por milhão de habitantes. Na nova lista actualizada Portugal aparece na 15ª posição, à frente da França e também da Alemanha.  Já a desgraçadinha Rússia aparece abaixo do Paquistão. 

O facto da instituição que a nível mundial lidera as publicações nesta área, ser nada mais nada menos, do que a Harvard Medical Schoo (associada a mais de uma dezena de prémios Nobel) mostra bem a importância científica e económica desta área. A plataforma Scopus também permite saber quais são as universidades Portuguesas que mais contribuiram para esse resultado, que é uma informação importante, mas essa informação merecerá um novo post no futuro. 

  1. Singapore………..88 publicações científicas por milhão de habitantes
  2. Switzerland……..74
  3. Norway……………74
  4. Ireland…………….72
  5. Finland……………72
  6. UAE………………….70
  7. Hong Kong………62
  8. Denmark………….58
  9. Australia………….53
  10. Sweden…………….53
  11. Netherlands……..51
  12. Austria…………….47
  13. United K.……….. 46
  14. Greece……………..46
  15. Portugal…………..45
  16. Canada…………….38
  17. Saudi Arabia…….37
  18. Italy………………….35
  19. Belgium……………33
  20. Germany…………..31
  21. South Korea……..28
  22. Taiwan……………..28
  23. Spain………………..25
  24. United States……24
  25. Malaysia…………..19
  26. France……………..16
  27. Japan…………………7
  28. Turkey……………….8
  29. Morocco……………8
  30. Egypt………………….5
  31. India…………………..5
  32. Iran…………………….5
  33. South Africa………5
  34. China………………….4
  35. Pakistan……………..3
  36. Russia………………..3

Gen AI’s Dark Side: Researchers Expose Rising Tide of Deceptive Content and Fraud

Continuing from the earlier discussion titled AI has radically changed the core university business, shifting focus from teaching and publications to ‘assessment, curation, and mentoring where I elaborated on an article featured in The Economist, it is noteworthy that Google researchers have released a paper addressing GenAI misuse.

The paper exposes that a majority of generative AI users leverage the technology to blur distinctions between genuine and fabricated content, such as misleading images and videos, often with intentions to deceive, manipulate public opinion, perpetrate fraud, or seek financial gain. Through a comprehensive review of academic literature and analysis of approximately 200 documented cases of AI misuse, the researchers concluded that the sophisticated capabilities and accessibility of generative AI empower even those with limited technical skills to produce highly convincing deceptive content. https://arxiv.org/pdf/2406.13843 

PS – The aforementioned study on Generative AI clearly indicates the need to anticipate changes to the university mission. If this is the case, it is important to remember the additional dimension of responsibility to the academic obligations mentioned here.

The war for talent intensifies: Emerging Trends and Challenges

https://english.aawsat.com/gulf/5037172-saudi-arabia-approves-granting-saudi-citizenship-select-researchers-innovators

It is not surprising that Saudi Arabia, traditionally not known as a scientific powerhouse, has recently approved the granting of citizenship to distinguished talents. For further details, please refer to the article linked above. What is surprising is that the South Korean government, recognized as a leader in science and technology, has decided to expand the scope of visas to attract the best global talent in these fields https://www.universityworldnews.com/post.php?story=20240705071640527

It is important to note that in March this year, Clarivate Analytics revealed the Top 100 Global Innovators of 2024. On page 19, a particularly compelling graphic projects the most innovative countries for 2025, 2026, 2027, and 2028, with South Korea expected to appear at the top in all these years. If the country poised to occupy the top spot in the coming years is so focused on the competition for talent, then other nations, particularly European countries identified in the report as being on a downward trajectory, should be even more concerned.

Indeed, there is at least one country that not only fails to implement policies designed to attract and retain talented individuals but, conversely, has taken significant and deliberate steps to actively discourage and repel them. This country has fostered an environment hostile to talent, driving away skilled professionals and innovative thinkers rather than attracting them.

PS – In light of the aforementioned context, it is pertinent to revisit the earlier post dated May 14, 2023, entitled “Game changers in science and technology: The next 10 years, 2053 and the limits of knowledge, what we will never know”

A amarguíssima sorte de um filho e neto de catedráticos

Há algumas horas atrás, fui informado pelo próprio, um professor associado com agregação na universidade de Lisboa, que a sentença que apreciou a ação, que intentou contra si um filho e neto de catedráticos, exigindo 15.000 euros a título de indemnização, por conta de uma entrevista que aquele professor deu à revista Sábado, não foi favorável ao tal filho e neto de catedráticos. A meu ver essa sentença, constitui uma medalha de honra, de elevado valor, ganha pelo referido professor, como aquelas já ganhas por outros igualmente corajosos Portugueses, como aqueles dois que foram elogiados há um ano atrás, pelo implacável Director-geral Adjunto Eduardo Dâmaso.

Faço porém notar que esta sentença nunca teria acontecido, se tivesse ocorrido há várias décadas atrás, quando então vigorava a tenebrosa “lei” que ditava que “o respeitinho é muito bonito”. Para tal foi necessário que Portugal fosse entretanto condenado dezenas de vezes no TEDH, tendo os contribuintes sido obrigados a pagar do seu bolso essa vergonha, para que finalmente em 2017 o Supremo Tribunal de Justiça ditasse que: as exigências de uma sociedade democrática e aberta não se coadunam com a imposição de restrições, formais e rígidas, ao exercício da actividade de escrutínio e crítica a temas de manifesta relevância e interesse público…não podendo erigir-se, neste âmbito, impedimentos ou discriminações ao modo como é exercida a liberdade de expressão e opinião que poderiam funcionar, em última análise, como formas atípicas ou subliminares de censura…justificando a necessidade de uma particular tolerância…às opiniões adversas…envolvendo  porventura o uso de expressões agressivas…”

O referido professor associado com agregação, mereceu inclusive um inacreditável processo disciplinar na sua Faculdade (a mesma Faculdade, que recorde-se, não levantou qualquer processo disciplinar a um docente daquela casa, que o MP acusou pelos crimes de “abuso de poder, falsificação de documentos e burla qualificada”), processo disciplinar esse, que eu na altura comentei num post, que se tornou no mais visualizado de sempre deste blogue.

PS – Em 2021 sugeri na parte final de um post sobre concursos que os candidatos familiares de catedráticos deviam ter preferência sobre todos os outros https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/07/ensino-superior-balanco-final-dos.html

Portugal’s former PM as EU Council President and Dutch’s most successful experiment

A few years ago, Jeroen Dijsselbloem, the Dutch Finance Minister, accused Southern European countries of wasting money on women and alcohol. In response, the Portuguese Prime Minister António Costa called his comment “racist, xenophobic and sexist” and demanded his resignation. Now that Portugal’s former Prime Minister has ascended to the role of President of the European Council, while the once outspoken Dutch hypocritical moralist Jeroen Dijsselbloem is merely the Mayor of Eindhoven (the city that tolerates racist, xenophobic, and sexist views), it appears that abstaining from spending on women and alcohol is not necessarily the path to political success.

It is an interesting economic theory suggesting that a country’s economic success is related to not spending money on women and alcohol. This theory, likely developed by Dutch scientists and taught in Dutch schools, contrasts sharply with the Southern European perspective. In Southern Europe, corporate tax evasion is recognized as a proven cause of economic failure. Most strangely, the Netherlands costs EU countries $10 billion a year in lost corporate tax revenue, with Portugal suffering significantly as its top Portuguese companies (representing an annual business volume of over 20 billion euros) relocate to the Netherlands to avoid paying taxes in Portugal.

In fact, spending money on wine is perfectly understandable for many in Southern Europe, especially considering that Jesus Christ’s first miracle was turning water into wine, signifying wine’s importance to Christians. However, accusing southern countries of spending money on women is difficult to understand, especially considering that the Netherlands has one of the highest ratios of prostitutes per million people in Europe.

PS – It’s quite ironic to hear the Dutch Finance Minister giving moral lessons to people in Southern countries, given that an article published in the prestigious journal Science reported that More than half of Dutch scientists regularly engage in questionable research practices. It seems the Dutch’s most successful experiment is seeing how far they can stretch the truth!