Ranking da irrelevância científica – A minha acertada previsão sobre a instituição de ensino superior que ainda se mantém a zero

“A minha nova previsão, para 2025, é que nessa altura, depois de avaliado o período 2012-2024, tanto o Politécnico de Portalegre como o de Castelo Branco ainda continuarão a zero…”

O texto acima, diz respeito a um post de Janeiro de 2024, onde então previ algo, que hoje uma análise da base Scopus, permite confirmar, pelo menos parcialmente. A minha previsão sobre o Politécnico de Portalegre errou (vide explicação no final do post), porque aquela instituição conseguiu entretanto sair do zero, mas a minha previsão sobre o Politécnico de Castelo Branco acertou pois aquela instituição, agora denominada universidade politécnica, é a única instituição do ensino superior pública em Portugal que ainda continua a zero (e é não só possível como até altamente provável que em 2026 a mesma ainda continue a zero) no ranking das instituições que possuem mais publicações científicas (artigos, livros ou capítulos) que tenham recebido mais de 300 citações na base Scopus, ranking esse cuja actualização abaixo se reproduz. 

1 – U.Porto…………….442 publicações que receberam mais de 300 citações

2 – U.Lisboa…………..426

3 – U.Coimbra………..193

4 – U.Nova…………….191

5 – U.Minho…………..162

6 – U.Aveiro…………..131

7 – UBI…………………..43

8 – UALG……………….38

9 – UTAD……………….27

10 – UÉvora…………25

11 – IPol. Porto………23 

12 – IPol.Bragança….23

13 – UAberta………….16    

14 – ISCTE…………….16

15 – UAçores………….16

16 – UMadeira………..12

17 – IPol.Leiria………..12

18 – IPol.Viseu…………8

19 – IPol.Lisboa………..8

20 – IPol.Guarda………8

21 – IPol.Viana C………5

22 – IPol.Coimbra……..5

23 – IPol.Beja…………..4

24 – IPCA………………..3

25 – IPol.Setubal………3

26 – IPol.Santarém……2

27 – IPol.Tomar…………1  

28 – IPol.Portalegre…..1   

29 – IPol.C.Branco…….0      

É também importante frisar que faz pouco sentido haver instituições politécnicas, que juntas, produziram no total menos publicações altamente citadas do que as que foram produzidas a nível individual por alguns investigadores, como aqueles listados no ranking Stanford e que já tinham sido mencionadas aqui. Tenha-se presente que a produção total de publicações altamente citadas de todos os Politécnicos foi de apenas 6% do total nacional e metade dessa percentagem pertence aos politécnicos do Porto e de Bragança.

Já os campeões nacionais, as universidades (Lisboa e Porto) embora façam evidente boa figura a nível nacional, o que não é muito difícil, desde logo por conta da sua dimensão, deixam porém muito a desejar num contexto internacional, porque essas duas universidades, que no conjunto possuem quase o dobro de professores e investigadores existentes na universidade de Uppsala (que de acordo com o ranking Shanghai está entre as 100 melhores universidades do Planeta), produziram desde 2012, menos publicações altamente citadas do que a referida universidade Sueca. Talvez uma parte da explicação para esse subdesempenho seja aquela que foi mencionada aqui

PS – Errei na minha previsão sobre o Politécnico de Portalegre, porque não fui capaz de prever (e ninguém seria capaz de o fazer) que em 2024, o artigo mais citado daquela instituição, receberia um elevado número de citações por parte de investigadores de diversas universidades Chinesas. 

Top 10 Engineering Triumphs 2024: The Disconnect Between Engineering Innovation and Humanity’s Critical Challenges

A few days ago, the journal Engineering unveiled its list of the Top 10 Engineering Achievements that have been completed and verified to be effective in a global scope within the past 5 years:

1. CAR-T cell therapy
2. Chang’e 6
3. LEO satellite constellation
4. Flexible displays
5. High-temperature gas-cooled reactor nuclear power station
6. Smart factories
7. Autonomous vehicles
8. Surgical robots
9. The Sora video-generation artificial intelligence model
10. Ultra-large wind power generation equipment

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2095809924006544

While the list undoubtedly showcases a range of remarkable accomplishments, I couldn’t help but notice the presence of a significant gap that warrants attention. These advancements seem to fall short in addressing many of the 14 Grand Challenges for Engineering — a framework designed to confront some of humanity’s most urgent issues. 

The 14 Grand Challenges aim not only to drive technological advancements but also to cultivate a world that is more sustainable, safe, healthy, and joyful — ultimately striving to improve the planet for future generations. Why does the engineering community prioritize short-term achievements over addressing the long-term challenges facing humanity? Could it be that humanity’s future simply isn’t profitable enough?

In 2019, Oxford scientist Pierrehumbert issued a stark warning “With regard to the climate crisis, yes, it’s time to panic.” However, a year earlier, Bendell had already declared the likelihood of  “an inevitable near-term social collapse due to climate change.” How many more dire warnings must we endure before the engineering community shifts its focus from profit-driven technologies to addressing the existential challenges threatening our survival?

Contraditar o excelentíssimo hipócrita Presidente da Assembleia da República

No caderno principal do semanário Expresso, o Exmo Sr. Presidente da Assembleia da República, Aguiar-Branco, lamentou-se do alegadamente, baixo salário dos políticos Portugueses e ainda teve o atrevimento de ir ao extremo da hipocrisia e afirmar que (salarialmente) os políticos nacionais estão a ser discriminados!!!  Sobre essa absolutamente inaudita alarvidade (leia-se descarada insanidade) afigura-se-me urgente replicar o seguinte:

1 – É rotundamente falso que os políticos Portugueses ganhem pouco. Na verdade e comparando o salário dos políticos de países, ricos, face à riqueza produzida por esses países, constata-se que os políticos Portugueses até recebem mais do que deviam receber. Vide email, que há alguns anos enviei a uma jornalista (pouco rigorosa) do Expresso e que posteriormente reproduzi num post aqui. Faço notar que essa comparação de rácios é até muito generosa para os políticos Portugueses, porque uma comparação realmente rigorosa, teria que lhes descontar do salário, todo o gigantesco prejuízo que eles causam a este país, seja directamente, por políticas altamente danosas, como a tal negociata da “justiça” arbitral, onde os contribuintes pagam centenas de milhões de euros por conta de contratos absolutamente inacreditáveis, seja indirectamente pela produção da legislação que legalizou a corrupção, a mesma que há muito vai empobrecendo este país, (quem afirmou tal, preto no branco, foi a famosa e corajosa Procuradora, agora Jubilada, Maria José Morgado https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/12/42-anos-no-combate-ao-crime-e.html

2 – Acresce ainda, que ao contrário do que sucede em países civilizados, onde a actividade política não se resume somente a um compasso de espera para cargos mais bem pagos, no nosso país, os políticos depois de abandonarem essa actividade, costumam passar a ganhar bastante mais, como Administradores de empresas públicas (ou do Banco de Portugal onde recebem o triplo do que recebe um catedrático), vide o artigo que a revista Sábado fez a esse respeito, vide também as inacreditáveis escutas, onde a Polícia Judiciária conseguiu ouvir um certo “senhor” a confessar que era uma puta e que nessa qualidade não se importava de ser presidente de uma empresa pública.  E isto já para nem falar dos percursos de quase 800 políticos (bem pagos) mencionados num estudo de um conhecido catedrático, estudo esse que resume bem o vergonhoso legado, de 50 anos desta coisa, que alguns espertalhaços parasitas e apenas porque lhes dá bastante jeito, apelidam de “democracia”. Recordo que um Português, catedrático numa universidade dos EUA, afirmou que no nosso país vigora uma cleptocracia, já eu entendo que é mais rigoroso chamar-lhe corruptocracia.  

3 – Quem efetivamente tem razões de sobra, para se queixar de perda de poder de compra, na função pública são precisamente os professores e investigadores do ensino superior, vide a este respeito a petição do Snesup ou o esclarecedor post de título “Até quando aguentarão os catedráticos este permanente enxovalho público ?”. E há uma diferença absolutamente abissal entre os políticos Portugueses e os professores e investigadores, é que no estrangeiro não há ninguém minimamente interessado em contratar os primeiros, pois há por lá excesso deles e até de qualidade muito superior, ao contrário do que sucede com muitos professores e investigadores Portugueses, que lá fora conseguirão um salário de valor muito superior aquele que recebem em Portugal e isso mesmo sem irem trabalhar para uma instituição como o Instituto Federal de Tecnologia ETHZ, onde há poucos anos atrás, um professor-auxiliar podia chegar a ganhar quase 15.000 euros/mês https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/09/os-luxuosos-salarios-de-professores.html

A Prioridade Estratégica de Desenvolver Polímatas para Conseguir Integrar Ciência, Inovação e Sustentabilidade

Num post anterior de Janeiro do corrente ano que agora está prestes a terminar, divulguei um livro de um conhecido investigador alemão Ulrich A.K. Betz. Nesse post mencionei também um admirável artigo do mesmo investigador, com co-autoria de investigadores das universidades de Harvard, Cambridge e Oxford, no qual se previa que a IA Generativa poderá dar inicio a uma nova idade de ouro para os polímatas.

Nessa sequência entendo importante divulgar um recente e interessante artigo de dois investigadores Norte-Americanos, que foi publicado na revista científica Patterns, sob o título “The recent Physics and Chemistry Nobel Prizes, AI, and the convergence of knowledge fields”, onde se defende que o desenvolvimento de polímatas, com recurso à IA generativa, deve ser considerado uma prioridade estratégica, para ajudar a colmatar a divisão existente entre os mais recentes avanços da ciência e as aplicações práticas necessárias para uma melhoria inequívoca e substancial da nossa sociedade.

Os seus autores só se esqueceram, de mencionar que a polimatia poderá ser especialmente importante para tentar compatibilizar, competitividade, crescimento económico e sustentabilidade, vide a este respeito, a menção que fiz num post anterior à frontal oposição ao modelo económico actual, por parte do ilustre Professor da UCLondon, Robert Costanza, que possui o impressionante registo de ter mais de uma dezena de publicações que receberam cada uma mais de mil citações na Scopus, incluindo uma que já foi citada mais de 15.000 vezes, acerca de uma estimativa do valor económico dos serviços ambientais, que à data era superior ao próprio PIB mundial.

PS – No final de cada ano, a prestigiada revista The Economist faz previsões para o ano seguinte. Este ano na sua edição The World Ahead 2025, há um intrigante artigo sobre 10 (dez) cenários hipotéticos, que embora improváveis, não são de probabilidade nula. Como se pode ler, logo no primeiro parágrafo, desse interessante artigo, quem pretende preparar-se para o futuro deve tentar antecipar a ocorrência de eventos que podem ser muito improváveis. E nesse contexto os polímatas poderão adquirir particular relevância, por conta da sua superior capacidade, em lidar com a incerteza associada aos referidos cenários, que no futuro se poderão tornar uma dura realidade.

A pífia proposta deste Governo, a incluir no RJIES, que na melhor das hipóteses, levará 18 anos a atingir o resultado pretendido

https://www.publico.pt/2024/12/23/opiniao/opiniao/autonomia-impacto-universidades-politecnicos-2116614

O Ministro Fernando Alexandre, foi ontem autor de um longo artigo, no jornal Público, sobre a revisão do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior-RJIES, vide link supra, onde entre outras coisas se pode ler:  “propõem-se regras para combater a endogamia no Ensino Superior. Em particular, as IES não poderão contratar um doutorado da sua instituição durante os três anos após o doutoramento”

Trata-se de uma iniciativa meritória, que ambiciona retirar Portugal do pódio internacional da endogamia académica, onde o nosso país tem a pouca honrosa companhia de países do terceiro mundo​, mas que eu recentemente critiquei por ser de muito fraco alcance​, num post contundente, ácido e irónico, mas muito realista.

​Devo recordar aqueles esquecidos e principalmente aqueles que não o sabem, que o primeiro estudo nacional sobre endogamia académica, que foi levado a cabo em 2016 (por coincidência, apenas alguns meses depois de eu ter sido o primeiro subscritor de uma petição sobre esse grave problema) apurou uma percentagem nacional de 70%, e o último estudo feito em 2022, confirmou que ao longo desses seis anos teve lugar uma redução miserável de apenas 2%, (0.33%/ano), https://wwwcdn.dges.gov.pt/sites/default/files/endogamiaacademica_20212022.pd significa isso, que mesmo que a fraca medida agora proposta por este Governo, conseguisse o improvável milagre de decuplicar essa percentagem de redução para 3,3% ao ano, então Portugal necessitaria ainda assim de 18 anos, para conseguir atingir percentagens de endogamia académica idênticas às de países como a Alemanha e o Reino Unido, que são inferiores a 10%.

A minha previsão de 2021 sobre um professor da Universidade de Coimbra que não se confirmou e a previsão acertada sobre um jovem investigador Italiano

https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/08/professor-associado-antunes-do-carmo-e.html

Em Agosto de 2021 (link supra) revelei o nome dos únicos três investigadores, da área da engenharia civil a nível mundial, que tinham mais de 1000 (mil) revisões de artigos confirmadas, dois Portugueses e um Australiano. Nessa sequência reproduzo abaixo o total de revisões dos referidos investigadores no dia de hoje. É claro que como esses investigadores se doutoraram em alturas muito diferentes, a única comparação que faz sentido fazer é a do rácio revisões/ano, desde a data do seu doutoramento, valor esse que aparece entre parênteses curvo.

Jorge de Brito……………………2258 (72) revisões confirmadas

Dong Sheng Jeng……………..1691 (62)

Pacheco-Torgal…………………1596 (93)

No referido post de 2021, previ que um professor da universidade de Coimbra, Antunes do Carmo, seria o próximo a atingir as 1000 revisões, na área da engenharia civil, porém como na presente data, ele possui 671 revisões confirmadas, ainda está longe de conseguir alcançar essa meta. Nesse post previ também que o jovem investigador Italiano Umberto Berardi, se tornaria a nível mundial, o 4º membro com mais de mil revisões, o que entretanto veio de facto a acontecer.

E como ainda por cima ele se doutorou apenas há pouco mais de uma década, isso significa que ele possui um rácio médio de revisões anuais de 84, o que o coloca acima do rácio do catedrático Dong Sheng Jeng e do catedrático Jorge de Brito, e significa também que daqui a poucos anos ele se poderá tornar o titular do maior rácio de revisões anuais na área da engenharia civil, entre os membros do Clube Mil. 

Aquilo que eu de facto não previ, foi que o investigador Umberto Berardi, chegaria tão depressa a catedrático, mas que afinal e bem vistas as coisas não é de estranhar, num investigador que em pouco mais de uma década conseguiu ter mais de 50 publicações com mais de 50 citações cada (Scopus h-index=54), que a maioria dos investigadores da área da engenharia civil não consegue, nem sequer 30 ou 40 anos depois de se terem doutorado e que está associado a um rácio h-index/ano superior ao rácio médio até mesmo dos catedráticos de engenharia civil do Imperial College e também do MIT.  https://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/30767

PS – Sobre o tema supra convém recordar que alguns Editores de revistas científicas referem que a importante actividade de revisão de artigos se encontra em crise a nível mundial, pois há cada vez mais artigos que necessitam de revisão e esse aumento da procura não foi acompanhado de um aumento da oferta do número de revisores com elevada experiência nessa actividade, vide por exemplo o artigo que há poucos meses foi publicado na revista Higher Education Quarterly“The crisis of peer review: Part of the evolution of science” https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/hequ.12511

Um prestigiado cientista que recebeu uma indemnização por ter escrito sobre um “mentiroso reles” e “um pobre-diabo”

“…o queixoso era um prestigiado cientista que fora condenado criminalmente, neste jardim à beira-mar plantado, como difamador, por ter respondido a um ataque à sua competência profissional, classificando o atacante como um “mentiroso reles” e “um pobre-diabo”

O extrato supra foi retirado do último artigo do conhecido advogado Francisco Teixeira da Mota no jornal Público, onde aquele escreveu sobre um recente livro, com mais de 600 páginas de reflexões sobre 30 decisões do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos -TEDH e onde só faltou mencionar o valor total que o Estado Português já foi condenado a pagar por conta das bizarras decisões de muitos juízes Portugueses, como aquela sentença, famosa por maus motivos, que condenou o Director do jornal Público a pagar 60.000 euros ao juiz Noronha Nascimento https://www.publico.pt/2017/01/17/sociedade/noticia/estado-portugues-violou-direito-a-liberdade-de-expressao-de-exdirector-do-publico-1758605

Não admira por isso que como dei conta há alguns anos atrás, Portugal é campeão de condenações no TEDH, numa percentagem que é 350% superior à da Holanda e pasme-se, 900% superior à da Alemanha https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/11/tribunal-europeu-dos-direitos-do.html 

Ainda sobre aquilo que é o bizarro entendimento dos juízes Portugueses acerca dos limites da liberdade de expressão, recordo que em 2022 constatei que para os juízes Portugueses, era menos grave alguém ser condenado por fugir ao fisco, num valor de 39 milhões de euros, do que ser condenado pelo crime de difamação. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/04/o-que-e-mais-grave-difamar-alguem-ou.html

Um ataque ao coração do nepotismo catedrático: Ministro propõe que os docentes e investigadores não possam ser contratados pelas instituições onde se doutoraram

https://www.publico.pt/2024/12/13/ciencia/noticia/endogamia-academica-governo-quer-limitar-contratacoes-medida-podera-curta-2115599

Hoje o jornal Público revelou que o Governo pretende, talvez para celebrar os 50 anos da democracia Portuguesa, tentar aproximar, de forma muito suave, este país daquilo que há muito se faz noutros países, como por exemplo na Alemanha e nos EUA. É porém evidente que esta suave medida não vai passar, pela simples razão que afronta os catedráticos e catedráticas, donos da Academia, cujo grande sonho de vida, é poderem ser sucedidos nesse cargo pelos seus filhos e filhas. Não sou eu que o digo, foi um feroz magistrado aposentado, que em 2020, no seu blog, criticou essa “tradição” de forma veemente “Eppure…isto não deixa de ser vergonhoso e até indigno https://portadaloja.blogspot.com/2020/02/a-licao-de-coimbra-e-italiana.html

Sobre a peregrina mas suave proposta do Ministro Fernando Alexandre, entendo como bastante pertinente relembrar, que em 2015 fui o primeiro subscritor de uma petição contra a viciação concursal associada à endogamia académica. De lá para cá e já passaram quase 10 anos, praticamente nada foi feito para tentar resolver o problema. Em 2017 foi publicado o primeiro Estudo da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, que confirmou que a Universidade de Coimbra é a campeã nacional da endogamia, estudo esse que na altura suscitou a indignação do Ministro Heitor, a qual porém, qual montanha que pariu um rato, se traduziu apenas na aprovação de uma tímida medida pela FCT, e que só se aplica aos bolseiros de pós-doutoramento. Pessoalmente e em coerência com aquilo que defendi em 2015, na supracitada petição, entendo que a melhor forma de combater a endogamia académica, passa por alterar os júris dos concursos, para que sejam integralmente constituídos por especialistas estrangeiros, como sucedeu nos concursos Investigador-FCT, uma hipótese alternativa, praticada  nas universidades da Suécia, passa por convidar um professor de uma universidade estrangeira de topo, para eliminar os candidatos mais fracos e escolher os 2 ou 3 que passarão à fase final do concurso. Vide exemplo https://www.docdroid.net/ONpHyGk/review-by-aalto-university-expert-pdf

PS – Num post anterior de 2023, comentei de forma negativa o programa FCT tenure, nesse post abstive-me porém, porque entendi que era redundante fazê-lo, de criticar como merecia um aspecto crucial do mesmo. Que esse programa, a coberto de alegadas piedosas intenções, conseguiu algo imperdoável, retirar à FCT a realização dos concursos, com recurso a especialistas estrangeiros, que constitui a sua principal mais valia, entregando-os às universidades e aos seus júris caseiros, assim favorecendo objctivamente a selecção dos investigadores mais subservientes, como há muito sucede nos concursos para a carreira docente, como foi confessado por um Reitor https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/08/reitor-diz-que-os-juris-academicos.html e muito antes já tinha sido denunciado e criticado por vários catedráticos, como por exemplo aqueles dois corajosos catedráticos da Universidade de Lisboa que foram mencionados aqui https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/04/9-euros-e-quanto-custa-o-livro-sobre-os.html Em suma, o programa FCT tenure escancarou as portas ao nepotismo, consubstanciando uma chocante e condenável vitória dos mais retrógrados e perniciosos interesses instalados da Academia Portuguesa, a qual terá como consequência mais evidente, a saída de talento científico para outros países, onde a endogamia e o nepotismo catedrático não ditam as regras. 

Os cientistas que receberam 70.000 euros por ano pelo aluguer da sua afiliação

https://english.elpais.com/science-tech/2024-12-05/dozens-of-the-worlds-most-cited-scientists-stop-falsely-claiming-to-work-in-saudi-arabia.html

O jornal El País acaba de voltar a publicar um artigo sobre os cientistas que andaram a “alugar” a sua afiliação a universidades Sauditas. Desta vez porém o propósito do artigo não é para falar dos cientistas Espanhóis nessa situação, mas para mostrar que afinal os Espanhóis nem sequer foram aqueles que mais “alugaram” a sua afiliação e para dar conta da inevitável queda das universidades da Arábia Saudita, agora que se tornou público que esses cientistas não trabalhavam naquele país. 

Sobre este tema recordo que em 27 de Abril comentei as primeiras noticias sobre os cientistas Espanhóis que andaram a “alugar” a sua afiliação a universidades Sauditas. Nesse post escrevi que nessa história nem tudo é preto e branco, pois há cientistas na Espanha, sem contrato de exclusividade, que até se vem obrigados a ter um part-time no ensino secundário para conseguirem melhorar o vencimento, pelo que é assim difícil aceitar exercícios hipócritas de apedrejamento público, por aqueles não terem resistido ao dinheiro Saudita. 

E se não houve nenhum caso em Portugal de aluguer de afiliação (logo o país onde até há uma universidade pública cujo Reitor recebe simultaneamente dois salários, o que no futuro levará outros a copiar essa esperteza saloia) muito provavelmente, foi apenas porque os cientistas Portugueses HCR estão todos eles em exclusividade de funções. Verdadeiramente inaceitável em Portugal, é que um investigador no inicio de carreira, ganhe apenas o mesmo que ganha qualquer um dos muitos motoristas do Primeiro-Ministro. 

PS – Apesar de tudo, há porém uma dimensão positiva nesta história, o facto de mostrar que existe uma competição mundial pelo talento científico e que se a Arábia Saudita quer de facto ter nas suas Universidades cientistas reputados, vai ter de lhes pagar muito mais do que 70.000 euros por ano (que representa apenas 0,035% do salário pago pelos Sauditas ao hipócrita artista do pontapé e da cabeçada Ronaldo), pois há muitas universidades europeias e Americanas que pagam mais do que isso por cientistas de topo. E agora até a própria China já lhes leva a palma nesse campeonato.

Governo corta o financiamento na área das humanidades e das ciências sociais para privilegiar somente as ciências “douradas”

https://www.science.org/content/article/amid-cuts-basic-research-new-zealand-scraps-all-support-social-sciences

Não foi uma decisão do Donald Trump, nem do anarcocapitalista Presidente da Argentina, o “Presidente favorito de Trump“, nem sequer de nenhum ditador de um país do terceiro mundo, mas logo do Governo da Nova Zelândia, vide noticia no link supra, onde se pode ler que a Ministra da Ciência, Inovação e Tecnologia daquele país (que certamente não por acaso até é um dos mais civilizados do Planeta, de acordo com o índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas) afirmou que doravante o financiamento de investigação, será dirigido somente a áreas que tenham impacto económico, incluindo nesse grupo, as áreas da física, da química, da matemática, das engenharias e das ciências biomédicas. 

Um dos maiores, senão mesmo o maior inconveniente desta abordagem passa pelo seu impacto previsível a nível mundial, porque levará à germinação de ideias similares na cabeça de dirigentes de países pobres, que logo correrão a copiar essa receita, com a argumentação, que se um país que está no grupo dos 25 mais ricos e com um PIB/capita similar ao da França e da Itália achou necessário financiar somente as áreas científicas com impacto económico, então mais razões tem países pobres para lhe seguirem o exemplo. 

E quando se começa a cortar nas despesas de investigação de algumas áreas, alegando que é preciso guardar o dinheiro, para as áreas que tenham mais impacto económico, então já se sabe que a seguir virá a exigência, no sentido dos projectos a financiar, dever ser feita favorecendo os projectos do tipo MIDAS, que prometam o maior retorno económico o mais rapidamente possível, o que levará ao financiamento de projectos, que muito embora prometam elevado retorno económico, no final ficarão apenas pelas promessas. 

PS – Sobre a questão supra vale a pena revisitar o post anterior de título “A serendipidade na ciência e a paralisação do progresso científico”