Há algo de politicamente repugnante em assistir à gravíssima crise da habitação e descobrir que uma das respostas mais musculadas do Estado se destina precisamente a quem protesta contra ela. Para quem não consegue pagar uma casa, acumulam-se dificuldades, promessas e recomendações de paciência; para desocupar uma praça, aparecem meios, determinação e bastões. Um Governo deveria sentir vergonha quando consegue mobilizar tanta força para dispersar o desespero e revela tão pouca capacidade para lhe dar resposta.
E onde está essa valentia das bastonadas na rica Comporta e no litoral de Grândola, perante os condicionamentos ao acesso a praias públicas? Onde está o zelo pela ordem quando é preciso enfrentar interesses privados abastados? A autoridade do Estado torna-se politicamente desprezível quando exibe os músculos diante de quem protesta por uma casa e perde a voz à porta do luxo. Luís Neves deve explicar esta firmeza tão seletiva, tanta pressa em retirar tendas das praças e tão pouca determinação em defender o acesso de todos às praias públicas. Se a defesa do espaço público depende da fortuna de quem o ocupa, estamos perante uma vergonhosa submissão do poder político ao poder do dinheiro.
Ao classificar, com um cinismo intolerável, como “pedagógica” a atuação policial, conforme noticia hoje o jornal Público, Luís Neves fez mais do que desvalorizar os acontecimentos, revestiu o uso da força de uma arrogante missão educativa, como se aos cidadãos sem fortuna nem influência fosse necessário ensinar, à bastonada, o lugar que lhes está reservado. Que miserável conceção de autoridade leva um governante a ver na força de bastonadas uma lição para quem protesta por não conseguir pagar uma casa? Os cidadãos deste país não são súbditos do senhor ministro, as praças deste país não são o recreio do seu gabinete e o direito à manifestação não depende da sua licença nem da sua condescendência. Nem de propósito, no mesmo jornal Público de hoje, os constitucionalistas Reis Novais e Teresa Violante consideram que esse direito tem sido ostensivamente violado.
PS – Mas porque a indignação perante a crise da habitação também deve ser acompanhada pela discussão de soluções capazes de lhe dar resposta, depois do post anterior sobre a importância da construção pré-fabricada, aproveito agora para divulgar o último livro que editei, acabado de publicar pela prestigiada Elsevier e que reúne contributos de autores de 13 países, o qual aborda o elevado potencial da IA para tornar o ambiente construído simultaneamente mais sustentável e mais resiliente às alterações climáticas. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/11/ai-driven-solutions-for-greening-built.html