A cegueira da presidência da Fundação para a Ciência e Tecnologia perante problemas que afligem milhões de portugueses

Em Fevereiro de 2025, divulguei num dos meus blogues, os resultados de um inquérito internacional efectuado que identificou a saúde e os problemas energéticos, entre as principais prioridades que os cidadãos esperam ver assumidas pela comunidade científica. 

Por uma estranha coincidência nessa altura divulguei também que Portugal possui um recorde europeu particularmente preocupante e até vergonhoso, pois é o país europeu com a maior percentagem de pobreza energética.

Entretanto, desde o inicio de 2026 a guerra de Trump contra o Irão veio agravar a vulnerabilidade energética e pressionar os preços à escala mundial. Aos constrangimentos no abastecimento somam-se mais recentemente os ataques dos Houthis às infra-estruturas sauditas e às rotas marítimas, o aumento da procura de petróleo por parte da China e os danos provocados pelos ataques ucranianos às refinarias russas, que reduzem a disponibilidade de combustíveis para exportação. A conjugação destas pressões sobre a oferta e a procura dificulta uma descida sustentada dos preços da energia, o que irá agravar de forma substancial a factura energética e também a situação das famílias portuguesas que não conseguem aquecer adequadamente as suas habitações.

Como se as referidas vulnerabilidades não fossem já suficientemente graves, o comboio de tempestades que atingiu Portugal no início de 2026 afectou mais de 200 mil habitações, segundo o coordenador da Estrutura de Missão para a Recuperação da Região Centro. Portanto, às casas que os portugueses não conseguem comprar e às casas que não conseguem aquecer juntam-se agora milhares de casas cuja reparação ou reconstrução ameaça ultrapassar a capacidade financeira das famílias. Construir e reabilitar com maior rapidez, menor custo, melhor desempenho energético e maior resistência a fenómenos meteorológicos extremos tornou-se pelas referidas razões uma evidente urgência nacional.

Perante este cenário, seria legítimo esperar que a presidência da Fundação para a Ciência e a Tecnologia demonstrasse, nas suas decisões de financiamento, alguma correspondência entre as prioridades científicas e as necessidades dos cidadãos cujos impostos a sustentam. Seria expectável que a área da Engenharia Civil que tem um contributo directo para enfrentar dois dos problemas mais prementes do país, não só por melhorar o desempenho energético das habitações e desenvolver soluções que permitam construir e reabilitar de forma mais rápida e económica, fosse discriminada positivamente. Todavia, os resultados dos concursos de contratação de investigadores, através dos concursos CEEC, ontem divulgados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, revelam precisamente o contrário, pois à referida área da Engenharia Civil couberam menos vagas do que à Sociologia, metade das vagas atribuídas à História e apenas um terço das vagas destinadas à área da Filosofia. 

Com que fundamento se considera a referida distribuição de vagas adequada a um país que enfrenta pobreza energética, habitação inacessível, milhares de casas a necessitar de reabilitação urgente e uma pressão crescente sobre os custos da energia? Não constituem os resultados referidos uma demonstração flagrante da cegueira da FCT perante alguns dos problemas mais graves e persistentes que afectam vários milhões de portugueses?

PS – Como divulguei há apenas uma semana atrás, o programa CEBE, que reúne quatro universidades dinamarquesas e a prestigiada universidade suíça ETH Zürich, coloca a área da Engenharia Civil no centro de uma ambiciosa resposta científica aos desafios do ambiente construído, da energia e da emergência climática. Este exemplo torna ainda mais flagrante a cegueira da presidência da FCT, logo num país onde milhões de cidadãos vivem as consequências da degradação das habitações e da pobreza energética, esta instituição atribui uma expressão residual à contratação de investigadores numa área directamente ligada à resolução desses problemas. Uma presidência da FCT que não reconhece a referida urgência revela uma preocupante incapacidade institucional de distinguir entre administrar burocraticamente concursos e servir efectivamente o superior interesse público.