No post intitulado Novas evidências desmascaram a notória pseudoexcelência da ciência portuguesa, expus o contraste grotesco entre a prodigiosa abundância de unidades de investigação classificadas como Muito Bom ou Excelente e a humilhante falta de competitividade internacional da ciência nacional. Uma entrevista da investigadora Joana Gonçalves Sá, hoje no jornal Público, acrescenta agora duas revelações que tornam essa ficção ainda mais difícil de esconder. A primeira arrasa por completo a narrativa oficial da excelência nacional, já que entre os países abrangidos pelo programa europeu Widening, destinado aos Estados-Membros com menor desempenho científico, Portugal é o único país que regrediu no indicador que mede a presença dos seus artigos científicos entre os mais citados do mundo.
A segunda revelação atinge o coração desta ilusão estatística e confirma uma denúncia que eu já tinha tornado pública no post de 26 de agosto sob o título As manobras agostinhas do Governo sobre um escândalo de 1000 milhões de euros. Joana Gonçalves Sá revela que Portugal não se especializou na produção de ciência de topo, mas na transferência de financiamento público para empresas, posteriormente convertido, por alquimia estatística, em investimento privado em investigação. É assim que se chega ao fenómeno quase grotesco de alguns bancos surgirem entre as empresas que mais investigação declaram realizar. Da próxima vez que entrar num banco, não se limite a perguntar pelas taxas de juro, peça também ao gerente uma visita guiada aos laboratórios de I&D onde trabalham os investigadores responsáveis pela prodigiosa investigação bancária, a tal que é generosamente subsidiada pelo Governo português.
O resultado desta contabilidade criativa é um verdadeiro milagre estatístico, as empresas empregam apenas 8% dos doutorados do país, mas conseguem declarar que quase metade de todos os investigadores portugueses trabalha para elas. Mais revelador ainda, a relação mais evidente entre as empresas que declaram I&D não parece ser a produção de conhecimento, mas o volume dos respetivos lucros. A lógica é cristalina, quanto maiores os lucros, maior o IRC a pagar; quanto maior o IRC, mais lucrativo se torna declarar despesas elegíveis para benefícios fiscais. Dito sem eufemismos, aquilo que poderá estar a crescer não é a investigação empresarial, mas o negócio de declarar investigação: uma poderosa máquina fiscal que transforma formulários em laboratórios e benefícios fiscais em ciência. Quanto aos milhares de investigadores que deveriam trabalhar nesses prodigiosos laboratórios, ninguém parece conseguir encontrá-los. Talvez estejam escondidos.
PS – Como revelei há vários anos no meu primeiro blogue, países ricos como a Suíça não concedem benefícios fiscais às empresas pelo simples facto de declararem atividades de investigação. Em Portugal, este tipo de incentivo até poderá justificar-se, mas apenas quando dirigido a jovens empresas de elevado potencial que ainda não geram lucros suficientes para financiar essas actividades de investigação. O que é absolutamente indefensável é utilizar dinheiro público para subsidiar bancos que acumulam centenas de milhões de euros em lucros sobretudo quando alguns deles estiveram envolvidos em vergonhosas práticas de cartelização https://expresso.pt/economia/sistema-bancario/2025-08-28-cartel-da-banca-bancos-nao-tem-de-pagar-nada-pelas-infracoes-cometidas-em-11-anos-25bc05a2