https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/10/engenharia-civil-condicionar-atribuicao.html
Há seis anos atrás denunciei uma falha grave, o facto de não ser obrigatório que os docentes de cursos de mestrado integrassem unidades de investigação com uma classificação mínima de Bom, vide texto disponível no link acima.
Durante todo esse tempo, milhares de estudantes pagaram o preço dessa omissão, sendo formados por muitos docentes que nunca investigaram, nunca publicaram um único artigo científico e que, em termos académicos, possuíam apenas a licenciatura. Levou seis anos, mas o Ministro da tutela reconheceu finalmente o erro, como se pode ler hoje num artigo no jornal Público onde é anunciado que essa exigência passará a ser regra.
O Sr. Ministro anunciou também que nenhum orientador poderá supervisionar mais de três alunos de doutoramento em simultâneo, para “garantir condições adequadas de acompanhamento pedagógico”.
Infelizmente, seria pedir demasiado que, após duas medidas positivas, não surgisse uma extremamente negativa. Decidiu o Sr.Ministro que no futuro só haverá doutoramentos com 100% do corpo docente pertencente a unidades classificadas com Muito Bom ou Excelente. Ou seja, os investigadores integrados em unidades classificadas com Bom passam a ficar impedidos de orientar teses de doutoramento.
Esta decisão é não apenas injusta é também cientificamente ignorante pois parece significar que o Sr Ministro desconhece, ou convenientemente ignora, que muitas dessas unidades receberam a classificação de Bom não porque a sua produção científica fosse “apenas Boa”, mas simplesmente porque não tinham mais de 50 investigadores.
A pseudo-avaliação da FCT, que critiquei na altura, penalizou assim em muitos casos a dimensão das unidades e não a sua competitividade científica. Recordo aliás que uma análise que fiz na altura permitiu concluir que mais de 80% das unidades classificadas com Bom tinham menos de 50 investigadores. https://pachecotorgal.com/2025/05/09/as-fragilissimas-explicacoes-politicas-do-do-mui-inteligente-ministro-catedratico/
Faço notar que existem muitos investigadores em unidades classificadas com Bom cujo currículo científico supera de longe o de investigadores de unidades classificadas com Muito Bom e até com Excelente. Excluí-los da orientação de doutoramentos não é uma medida de qualidade é uma medida arbitrária sem sentido, que sacrifica o mérito em nome de um critério burocrático, cientificamente indefensável pois a própria ciência já demonstrou que são precisamente as pequenas unidades de investigação que conseguem produzir resultados disruptivos, que são aqueles que a ciência Portuguesa mais se tem revelado incapaz de alcançar https://www.nature.com/articles/s41586-019-0941-9
Pior do que isso: não se trata apenas de má política científica, trata-se sim de uma clara violação flagrante do princípio constitucional do mérito, pois nenhum investigador pode ser discriminado por trabalhar numa unidade que a FCT considere pequena demais sobretudo quando a sua competência científica é inegável. A menos que o verdadeiro objetivo do Senhor Ministro seja outro: o de extinguir por via administrativa as unidades classificadas com Bom, forçando os seus melhores investigadores a abandoná-las e a integrar unidades de maior dimensão.
PS – Se o Sr. Ministro efectivamente pretende aumentar a qualidade dos doutoramentos nacionais, ao invés de andar a descriminar de forma ilegal os investigadores das unidades que foram erradamente classificadas com Bom, unicamente por conta da sua dimensão, então mais vale que copie a exigência existente nos regulamentos dos doutoramentos das universidades públicas da Espanha, que obrigam a que o depósito das teses só possa ser feito depois da sua qualidade científica ter sido avaliada por um especialista internacional da mesma área do doutoramento.