Com mortes já confirmadas, quase um milhão de portugueses sem eletricidade, milhares de habitações destruídas e uma rede rodoviária em colapso, o país atravessa horas de pânico e o Governo viu-se inclusive forçado a apelar à permanência da população em casa, num cenário de emergência que, como descreve o Expresso, faz lembrar um país sob ataque, quase como se estivesse a ser atingido por mísseis de um exército invasor. Mas nesta “guerra” os milhares de milhões de euros já gastos pelo actual Governo em equipamento militar, um desperdício doze vezes superior ao valor do investimento público em Ciência, não servem para salvar vidas ou proteger pessoas, revelando-se absolutamente inúteis.
E é precisamente neste quadro de devastação que se torna impossível ignorar as consequências de um importante estudo de investigadores alemães, segundo o qual estes fenómenos não são raros nem exceções meteorológicas, são, muito pelo contrário, um ensaio geral daquilo que ameaça tornar-se nas próximas décadas uma rotina trágica. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/09/artigo-de-investigadores-alemaes-ajuda.html
O que aí vem nos próximos anos provocará uma enorme destruição à escala de uma guerra, mas esta não será provocada pela Rússia. Virá de fenómenos atmosféricos extremos, associados a um colapso climático. E perante isto o Governo Português optou, erradamente, por se preparar para uma invasão russa que não chegará nunca, até porque aquele país está economicamente à beira do colapso, enquanto ignora a única guerra que Portugal terá de enfrentar, cuja probabilidade de ocorrência é de 100%, contra a crise climática. Uma guerra que não se combate com misseis, com drones ou tanques blindados, mas com Ciência, investimento público e políticas de adaptação e resiliência climática de longo prazo.
Desde logo, este Governo já há muito que deveria ter criminalizado qualquer licenciamento autárquico de novas edificações em zonas de risco, nomeadamente em zonas propicias a deslizamentos de terras, em zonas inundáveis, em zonas costeiras ou áreas diretamente expostas à subida do nível do mar, relativamente às quais faz sentido revisitar a frase: “os contribuintes deste país serão obrigados a pagar milhões para evitar que o mar engula “apartamentos a preços milionários, construídos quase em cima do mar.”
PS – A gravidade dos supracitados fenómenos climáticos extremos tem, paradoxalmente, uma enorme virtude: expõe de forma inequívoca a vacuidade e a indigência do programa político do partido liderado por André Ventura, um programa negligente e incompetente, em que a emergência climática é totalmente ignorada e no qual não se encontra uma única linha, proposta ou visão, por mínima que seja, num vazio programático absoluto, sobre o que o nosso país deve fazer de imediato para prevenir ou mitigar consequências que agora já são bastante devastadoras, mas que ameaçam tornar-se muito mais destrutivas no futuro.